Leandro Galvão Castro, 9 anos, joga bola todos os dias, antes e depois de ir à escola. O Mundial da Rússia despertou o sonho de carregar no peito mais uma estrela na camisa da Seleção(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

A paixão que se espalha por Brasília ecoa também nas ruas da região mais carente da cidade, o bairro de Santa Luzia, na Estrutural

A bandeira verde-amarela pintada no muro de tábuas reaproveitadas dá cor à paisagem monocromática do bairro de Santa Luzia, na Estrutural. A bola bate nos pés descalços do menino negro, esguio, de sorriso largo. Leandro Galvão Castro, 9 anos, treina as embaixadas e dribles que aprendeu com o irmão mais velho, de 18 anos. A camisa é emprestada de outra irmã, de 16. Uniforme completo para entrar em campo com a legião de torcedores brasilienses.

Leandro bate bola todos os dias, antes e depois de ir à escola. O Mundial da Rússia despertou o sonho de conquistar o hexacampeonato. O esporte que cresceu nas periferias tem a capacidade de unir as paixões de habitantes de diferentes regiões e classes sociais. O próprio Neymar, herói do garoto, é filho de mecânico e passou a infância em uma casa simples, em São Vicente, em Santos (SP).

Encabulado e sempre sorrindo, o pequeno corintiano conta que nem sempre a tevê está disponível para os jogos. Mas, quando não é possível acompanhar as partidas ao vivo, rapidamente encontra alternativas. Agitado, ele some pelas vielas de Santa Luzia em busca de uma pipa ao léu, outro passatempo favorito, ou atrás da bola. Entre casas de alvenaria e ruas sem asfalto, qualquer terreno amplo de terra vermelha vira campo de futebol.

A mãe de Leandro, Maria Aparecida da Conceição de Freitas, 36, era catadora no Lixão da Estrutural e ficou sem emprego após o fechamento do aterro. Trabalhou como faxineira, mas parou novamente, para cuidar de uma das irmãs de Leandro, que tem problemas cardíacos. Ainda casada, ela veio da Ilha de Itaparica (BA) para o DF em 2002, com os dois primeiros filhos. “Morei em uma invasão do Pistão Sul, depois em outra, na Estrutural. Fomos removidos e vim para cá”, recorda.

O pai das crianças deixou a família e, embora more na mesma cidade, não participa da educação dos filhos. “Aqui é tudo eu. Ladson e Lorena me ajudam”, relata a mãe. Maria Aparecida fala da vida com naturalidade, como se nada pudesse ter sido diferente. Falar de Leandro a faz abrir um sorriso. “Ele gosta de jogar bola, empinar pipa e andar de bicicleta. Deu trabalho na escola, mas mudamos ele de horário e o colocamos em atividades no Coletivo da Cidade, onde tem aula de informática, acesso à biblioteca e almoço. Mas quando junta com o caçula da família, que tem 5 anos, aí é difícil”, brinca.

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

Desigualdade

Maria Aparecida continua em busca de emprego. Entregou currículos para trabalhar como gari ou auxiliar de serviços gerais. Às vezes, recebe ajuda na igreja evangélica que frequenta. Ladson também faz bicos. O dinheiro do Bolsa família é a única renda fixa dos sete. Às vezes, a mãe tem vontade de voltar para a Bahia. “Lá, ao menos tenho parentes que podem me ajudar a cuidar dos filhos.”

Apesar da proximidade com o Plano Piloto — são cerca de 15km de distância —, a família do pequeno jogador nunca visitou o centro da capital. Realidade semelhante à de outros moradores do bairro. “Se pegarmos a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad) da Estrutural e compararmos com o Lago Sul, a diferença de renda é de 15 vezes. E, dentro da Estrutural, temos o Santa Luzia, que é ainda mais pobre. Segundo algumas estimativas, a renda média per capita do bairro é metade do restante da cidade”, afirma Bruno Cruz, diretor de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).

“A população da Estrutural é segregada”, resume a geógrafa e professora Jéssica Mendes Miranda, que traçou o quadro de exclusão na região administrativa em monografia apresentada ao Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB). “Só conseguiram ônibus, por exemplo, à base de protesto”, observa. E o isolamento se propaga: “Para alguns dos moradores, Santa Luzia nem é considerada parte da cidade”.

É nesses locais que as desigualdades vistas pelo país se refletem no Distrito Federal. “O Brasil é um país muito desigual. No DF, essa desigualdade foi construída ao longo do tempo. Há desigualdade de escolaridade também, o que, novamente, se repete no cenário nacional”, pontua Bruno Cruz.

Aos 9 anos, alheio a tudo isso, Leandro fica até tarde na frente de casa. Espera pelo irmão. Vizinhos acendem uma fogueira, e o menino sonha com um gol do Brasil e com o hexa. Ecoando a paixão nacional que tomou conta de Brasília, os muros de Santa Luzia também vibram. Pintados de verde-amarelo, parecem gritar: “Vai, Brasil!”

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE