Especialistas não descartam necessidade do governo decretar ‘lockdown’ com aumento da covid 19 no DF   Agenda Capital
Especialistas não descartam necessidade do governo decretar ‘lockdown’ com aumento da covid 19 no DF Agenda Capital
Especialistas não descartam necessidade do governo decretar ‘lockdown’ com aumento da covid 19 no DF Agenda Capital

relaxamento do isolamento
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Abertura de bares e reastaurantes motivou as pessoas a saírem de casa e se exporem ao vírus (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

O Distrito Federal retoma as atividades comerciais e a população relaxa quanto às medidas sanitárias. Especialistas alertam para a gravidade da situação, que deve ficar mais crítica nos próximos 15 dias, e para a possibilidade de lockdown

Por Jaqueline Silva e Tainá Seixas

Bares e restaurantes reabriram as portas, parques voltaram a funcionar e lojas, academias e salões de beleza retomaram as atividades. Enquanto isso, o novo coronavírus mata cada vez mais pessoas no Distrito Federal. Hoje, a capital registra 1.075 óbitos, sendo que 96 pessoas eram moradoras de outros estados que faleceram em uma unidade de saúde do DF. Especialistas alertam que, diante deste cenário, em quinze dias, será possível observar as consequências do descaso com o isolamento social, com um aumento drástico no número de casos.

Ontem, o DF chegou à marca de 81.163 infectados. Nas últimas 24 horas, foram registradas 1.763 ocorrências. O número elevado de pacientes aproxima o sistema de saúde de uma situação crítica. Nos hospitais públicos, 82,09% dos leitos destinados ao tratamento da covid-19 estão ocupados; na rede privada, a taxa é de 90,84%. Apesar da escalada de casos, o isolamento social vem caindo, gradualmente, no DF. Ontem, o site Inloco registrou taxa de 35,7% de isolamento social na capital, esse índice era de 62,2%, no fim de março. Os dados são consolidados a partir de informações coletadas de localizadores de celulares. A reportagem observou o descumprimento do isolamento social e das medidas sanitárias nas ruas de Brasília. Um grupo de homens, todos sem máscaras, jogava futebol na entrequadra da 102/103 Norte. As atividades físicas coletivas estão suspensas, e o uso da proteção facial é obrigatório. Três amigas — Louise Menezes, Mariah Freire e Damiani Ribeiro —, que há muito tempo não se viam, resolveram encontrar-se, ontem à tarde, no Parque da Cidade. Esticaram uma toalha no gramado, levaram lanches e bebidas. Elas dizem fazer o isolamento em casa, mas resolveram abrir uma exceção. Nenhuma usava máscara e disseram que ninguém chamou a atenção pela falta do equipamento. A equipe do DF Legal estava a poucos metros do grupo. Louise, estudante de 28 anos, levou o filho Artur, que aprendeu a andar durante a pandemia, para passear. A moradora do Guará considera que esse tipo de atividade é essencial para o filho pequeno e admite que a flexibilização das atividades acarreta no relaxamento de cuidados para todos. “O governador foi muito bom, no início. Mas, agora, ele está abrindo tudo, até bar e restaurante. Aí (ir aos bares) é uma coisa que a gente não faz, mas, querendo ou não, a gente acaba indo com a maré, também”, justifica. A situação nos bares preocupa especialistas. Ontem, alguns estabelecimentos ficaram lotados e muitos frequentadores não usavam máscaras. Outros, mesmo com a autorização de funcionamento, preferiram manter as portas fechadas. No bar Primo Pobre, localizado na 203 Norte, as medidas de segurança foram intensificadas, como explica a auxiliar administrativa do local, Jessica Silva. “Temos capacidade de atender até 600 pessoas em dias normais, mas, agora, é no máximo 150.” Ela conta que o restaurante atende apenas com reserva, para evitar aglomerações, e trocou o cardápio físico pelo modelo virtual, acessado por QR Code. O diretor de Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde, Manoel Silva Neto, informa que houve muito descumprimento das medidas de segurança sanitárias. “A gente fez algumas autuações de comércio e algumas abordagens mais criteriosas com pessoas que não usavam a máscara ou usavam inadequadamente”. A instituição é uma das responsáveis pela fiscalização dos protocolos estabelecidos pelo Governo do Distrito Federal, que tem como objetivo o enfrentamento ao novo coronavírus.

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DF Legal, Vigilância Sanitária e Polícia Militar são alguns dos órgãos responsáveis pela fiscalização das medidas sanitárias(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Mais gente na rua

O conselheiro de Saúde Rubens Bias alerta para a explosão de novos casos no Distrito Federal. De acordo com o especialista, em quinze dias será possível conferir quais os impactos que a retomada das atividades comerciais terá no sistema de saúde do DF. “A reabertura está acontecendo em um momento em que os leitos de UTI estão acima de 90% de ocupação. A gente tem, portanto, um sistema colapsado. E, as imagens que a gente tem visto de bares lotados, muito provavelmente, vão ter efeito daqui duas semanas. Haverá um aumento grande no número de pessoas infectadas e de pessoas que precisam de leitos de UTI”, prevê Rubens. O cálculo é simples: quanto mais pessoas estão circulando nas ruas e entrando em contato umas com as outras, maior é a taxa de transmissão do vírus. Como não há vacina nem medicamento para a covid-19, a única medida de prevenção é o isolamento social. Boletim da covid-19, publicado em 7 de julho pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), mostra que o índice de infecção no Distrito Federal varia entre 1,2 e 1,3, o que indica que o vírus continua se propagando na capital. O professor de epidemiologista da Universidade de Brasília (UnB) Wildo Navegantes é categórico em dizer que o governo terá que decretar lockdown, em breve. “Não vai ser opcional, uma cidade ou outra vai ter que fazer. E, não vai funcionar, porque as pessoas estão vendo que (o governo) propõe lockdown, mas não oferece meios para as pessoas fazerem isso. O próprio Estado não tem condição de monitorar isso, e a população vai sair de casa, porque depende da diária para tocar a vida. Não é só canetada que vai resolver”, argumenta Navegantes. Para ele, são inúmeros os fatores que tornarão a medida imprescindível. O primeiro deles é a falta de leitos disponíveis, que abrange — além de maca, monitor e respirador —, toda a logística de saúde. Há deficiência no quadro de profissionais de saúde, que estão estafados, devido ao intenso dia a dia da pandemia, ou doentes — 3.173 dos casos registrados do novo coronavírus são médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. De acordo com Navegantes, medicamentos que servem de conforto aos pacientes da covid-19 e de outras enfermidades estão escassos, por falta de planejamento do Ministério da Saúde. “Nós tivemos dois meses para nos prepararmos, e nada foi feito”, critica. A ineficiência do Estado no controle do novo coronavírus, no DF, é outro fator apontado pelos especialistas para o avanço da doença. “Neste momento, não existe nenhuma política de controle real por parte das autoridades. O que existe é um deslocamento da prevenção para os indivíduos. Não tem nenhum dispositivo acima dos indivíduos que consiga administrar a pandemia”, afirma o infectologista José David Urbaez, da Sociedade Brasileira de Infectologista.

Testagem necessária

O baixo índice de testagem da população é um dos principais fatores que os especialistas apontam como falha para o controle da pandemia. “Essa subnotificação contribui para que as pessoas se arrisquem mais. Se você sabe que está contaminado, você reforça os cuidados com seus familiares, com seus vizinhos. Se você não sabe, provavelmente, os cuidados são relaxados. Isso ajuda a aumentar a transmissão da doença e contaminar mais gente”, esclarece Rubens Bias. Wildo Navegantes acrescenta: “Não adianta só identificar. É preciso que, se você estiver infectado, além de ficar em casa, avise com quem esteve em contato, para que essa pessoa também fiquem em quarentera. É necessário uma testagem atrelada à investigação dos contatos”, afirma. Segundo o GDF, o Distrito Federal está passando pelo platô da doença, isto é, o período em que o número de casos e mortes se estabiliza. O Executivo local afirma que pico deve seguir até 25 de julho. “Fica difícil saber até onde o platô vai. O que a gente sabe é que a maioria das pessoas ainda não foi infectada e, se tiverem contato com pessoas infectadas, elas vão adoecer. E nós não temos leitos disponíveis”, refuta Navegantes. Para Rubens Dias, o governo age de forma errática. “O governador passou de uma referência positiva na defesa à vida para uma referência negativa. O Conselho de Saúde do DF publicou resolução contra a reabertura das atividades enquanto não tiver resolvido três fatores: a taxa de ocupação das UTIs e enfermarias de covid-19, queda no número de novos casos e taxa de transmissão baixa”, destaca o infectologista. Segundo o médico, nenhum dos três fatores pode ser observado, atualmente.

Em nota, o Governo do Distrito Federal afirma que tudo está sendo feito com base em números e estatísticas, e a situação é monitorada pelo governo todos os dias, em tempo real. Acrescenta, ainda, que com qualquer alteração no quadro, o Executivo local estará atento para tomar as providências necessárias. Retrato da covid-19 no DF

Casos confirmados: 81.163 » Óbitos: 1.075 » Recuperadas: 67.644 » 52,6% das pessoas infectadas são mulheres; 47,4% são homens. » 57,9% dos mortos por covid-19 são homens; 42,1 são mulheres. Leitos de UTI exclusivos Rede Pública*Taxa total de ocupação de leitos para covid-19: 82,09% Rede PrivadaTaxa de ocupação de leitos para covid-19: 90,84% O Hospital Regional da Asa Norte e o Hospital de Base estão com todas as suas vagas de leitos de UTI ocupadas. No Hospital Regional de Santa Maria, 96,67% dos leitos estão ocupados. No Hospital de Samambaia, 95%. A taxa é de 90% no Hospital Regional de Ceilândia e no Hospital Universitário de Brasília.

Com informações do Correio

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Fonte: fogocruzadodf.com.br/destaques/especialistas-nao-descartam-necessidade-do-governo-decretar-lockdown-com-aumento-da-covid-19-no-df-agenda-capital

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