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Pica alho, cebola, pimenta, mais um toque de amor. Essa é a mistura do tempero venezuelano das Cozinheiras da Pátria, mulheres que compartilham uma das suas jornadas de trabalho em restaurantes populares que alimentam comunidades em situação de vulnerabilidade socioeconômica na Venezuela.

Chamados de Casas de Alimentação, os restaurantes fazem parte de um programa social criado em 2005, no governo do ex-presidente Hugo Chávez Frías. Durante a última década, o país conseguiu diminuir o índice de desnutrição de 13,5% para 2,5%.

Até 2019, foram abertas 3.117 unidades. A meta é chegar a 6 mil Casas de Alimentação, unificando a iniciativa com outros projetos que garantam a autossustentabilidade dos refeitórios, com a produção dos alimentos consumidos, por exemplo.

Na favela de La Pastora, localizada em Altos de Lídicelo, no centro-oeste de Caracas, a Casa foi aberta há um ano, numa cozinha cedida por Betty Valecillos, uma das representantes da Comuna Socialista do bairro.

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“Quando vi que mais de uma pessoa havia desistido de oferecer sua casa eu disse que poderia usar a minha casa, com a condição de que a minha irmã trabalhasse aqui. Não me atrapalha nem um pouco, como você pode ver, nós trabalhamos unidas”, relata Valecillos.

Cerca de 200 pessoas recebem almoço, de segunda a sexta-feira, pelas mãos das sete cozinheiras de Lídice. Entre 9h e 12h da manhã, a comunidade pode bater na porta de Betty para buscar seu prato de comida.

A prioridade são crianças e adolescentes com algum problema de desnutrição, além de idosos e pessoas com alguma deficiência física ou em situação de vulnerabilidade social.

As Cozinheiras da Patria de Altos de Lídice trabalham juntas diariamente de 6h a 12h / Michele de Mello

Em todo o país cerca de 1,7 milhão de venezuelanos permaneceram trabalhando em serviços essenciais durante a pandemia. O Estado se comprometeu a pagar os salários tanto do serviço público como das pequenas e médias empresas do setor privado até o final de 2020.

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No entanto, segundo dados oficiais, em 2016, já existiam 5.189 milhões de venezuelanos no setor informal e 1.035 milhão de desempregados, o que significa que uma parcela importante da classe trabalhadora não possui renda fixa mensal.

Apesar dos bônus sociais pagos mensalmente pelo Executivo, a precarização das condições de vida é evidente. “Agora como estamos com esse problema [pandemia] e há pessoas que realmente não têm o que comer. Nós oferecemos um prato de comida”, conta Olga Valecillos.

Os alimentos são enviados quinzenalmente pelo Estado. Para 200 pessoas são enviadas 80 cestas básicas, todos os meses, com cerca de 11kg de produtos cada uma. Quinzenalmente, representantes da Fundação Programa Estratégico de Alimentação (FundaProal) visitam as Casas de Alimentação para conferir se as refeições estão sendo distribuídas a quem necessita.

As cozinheiras também recebem uma cesta básica e um auxílio financeiro de meio salário mínimo, 400 bolívares soberanos (cerca de R$10,00).

“Os produtos chegam a cada quinze dias: arroz, macarrão, azeite, às vezes leite, às vezes açúcar, frango, porco. Dependendo o que a FundaProal tem disponível, eles nos mandam”, detalha Olga.

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No entanto, com o bloqueio e a crise econômica, a variedade de produtos é cada vez mais escassa. Na Venezuela, “resolver” é a palavra usada para representar a mágica que as mulheres realizam diariamente dentro das suas casas para garantir que nada falte para sua família.

Assim como em seus lares, as cozinheiras de Altos de Lídice “resolvem” para oferecer um cardápio variado aos vizinhos.

“Então o que nós fazemos? Porque, por exemplo, sabão, sal, nunca nos mandam. Trocamos um produto por algo que nós necessitamos, como temperos, banana da terra. Ah, sim, e a Comuna nos ajuda com o que produzem. Se plantam algo, sempre enviam um pouco para a Casa de Alimentação. Em dezembro, a Comuna coletou uma série de alimentos entre a comunidade para abastecer a nossa cozinha”, explica Olga Valecillos.

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Dorka é cozinheira da casa de alimentação desde a abertura: “O que nos motiva é ajudar a comunidade” / Michele de Mello

A falta de água e a escassez no abastecimento de gás são outras dificuldades diárias. Mas não são um motivo de desânimo. Entre uma gargalhada e outra, as cozinheiras garantem o almoço de todos. “De alguma ou de outra maneira acabamos solucionando. Entre todas, nos ajudamos”, assegura a cozinheira Dorka Sigala.

Plataforma Pátria

Para garantir o alimento necessário e também fiscalizar os trabalhos, um supervisor da FundaProal visita toda as Casas de Alimentação duas vezes por mês. Os beneficiários também devem estar cadastrados na plataforma Pátria – uma base de dados online do Estado, por meio da qual os venezuelanos podem ter acesso a programas sociais. Com seu próprio celular, a coordenadora do refeitório registra cada criança ou adulto atendido.

“De acordo com a quantidade de pessoas que servimos, enviam a comida”, afirma Olga.

Segundo o governo bolivariano, cerca de 20 milhões de venezuelanos estão inscritos na plataforma, que pode ser acessada no computador ou num aplicativo de celular.

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Betty Valecillos cedeu sua casa para abrir a Casa de Alimentação há um ano, na favela de La Pastora, zona de Altos de Lídice / Michele de Mello

Pandemia

Por conta da pandemia do novo coronavírus, as pessoas não podem mais almoçar dentro da Casa. Também passaram retirar a comida em horários diferentes, a partir das 9h, para evitar aglomerações. Todos devem usar máscaras de proteção.

Todas as sextas-feiras, agentes sanitários do poder público municipal fazem desinfecção da cozinha.

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Olga Valecillos, coordenadora das cozinheiras de Lídice, também assegurou que se alguma das suas companheiras tem qualquer sintoma da doença, deve permanecer em casa e que os grupos de cozinheiras são prioridade na  aplicação de testes massivos.

A Venezuela enfrenta o auge da pandemia, com o foco de contágios que se deslocou dos estados fronteiriços para Caracas. Em todo país foram registrados 24.166 infectados e 208 falecidos pela covid-19, o Distrito Capital concentra 5971 doentes.

“Temos que seguir adiante apesar dessa pandemia, porque isso vai passar, como outras coisas já passaram. Essa situação nos golpeou duro? Sim, é verdade, porque o venezuelano não está acostumado a isso. Mas tudo vai passar e andaremos por aí rindo e fazendo piada”, comenta Betty Valecillos.

Edição: Rodrigo Chagas

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Fonte: fogocruzadodf.com.br/brasil/2020/08/12/venezuela-combate-a-fome-e-a-desnutricao-com-rede-de-3

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