Desde o início da pandemia, o formato das lives se tornou grande alavanca do uso das redes com apresentações de todos os segmentos, com destaque para as atrações musicais que chegaram a alcançar mais de 3 milhões de pessoas em tempo real. De acordo com os dados da plataforma do Google Trends, que monitora as palavras-chave mais buscadas na internet, entre abril e maio, ocorreram picos de buscas pela palavra “live”.

Marília Mendonça, que alcançou 3,31 milhões de espectadores simultâneos, e Jorge e Mateus, que tiveram 3,24 milhões, demonstram a potência do formato que começou a disputar em níveis de equidade a audiência em horário nobre da televisão aberta. 

Os artistas com menor visibilidade e fora desse circuito majoritário também se utilizaram dessas plataformas pra conseguirem se comunicar e dialogar com seu público.

Não só na música, como no teatro, literatura, dança, as lives possibilitaram novas formas de conexão e interação. Mas como isso tudo aconteceu em uma explosão e saída emergencial para toda uma cadeia produtiva a saturação no número de transmissões começou a diluir o público. Pense, por exemplo, em milhares de canais tentando chamar a atenção do espectador para suas demandas.

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E não só do espectador que se vive uma live, muitas são pensadas para exibição dos patrocinadores, para exibirem suas marcas ou montarem a cenografia de acordo com seu conteúdo. Tudo evoluiu tão rápido que começamos a ter comerciais dentro das transmissões ao vivo. O nível de visibilidade e a nova forma de distribuição do mercado se reestruturou nesse curto período de tempo.

Já no último mês nos deparamos com um declínio agudo tanto no interesse do público e da busca pelas lives, como na produção dos próprios artistas nessa plataforma.

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Esse desinteresse reflete também a flexibilização e o processo de retorno gradual às atividades, depois de mais de 150 dias de confinamento. Ao meu ver, elas também estão ligadas a outro detalhe: quando surgiram, as lives tinham uma finalidade social de mobilização que unia as pessoas em um momento de exceção e dúvida, mas com o passar do tempo se tornaram apenas mais uma atração comum, mesmo para quem permanece em casa.

Certamente, o formato das lives cresceu e ocupou um espaço que dificilmente irá retroagir, tanto nas apresentações, quanto no conceito de comunicação como são os casos das reuniões remotas e outras tarefas do nosso cotidiano que ganharam espaço nas redes. Como toda novidade, agora vive seu período de baixa, mas encontrará seu nivelamento e também aperfeiçoamento com cada vez mais novas tecnologias na área. 

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O que precisamos insistentemente questionar é que todos esses processos estão ligados, em nosso país, a banalização da pandemia. Enquanto acontece a flexibilização, chegamos no marco de mais de 100 mil mortes. No entanto, ainda que com menos força, muitas lives permanecem também com um papel social importante como meios de comunicação alternativos para debater e apontar os absurdos e descasos do governo federal com seu povo e a saúde pública do país.

*Gregory Combat é produtor, artista e gestor cultural.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Rodrigo Chagas e Mariana Pitasse

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Fonte: fogocruzadodf.com.br/brasil/2020/08/13/artigo-o-desgaste-das-lives-e-a-banalizacao-da-pandemia

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