Publicado originalmente no Facebook de Renata Martins

 

A história da demissão em massa dos roteiristas negros da sala de desenvolvimento da série (de ficção para a Globoplay) sobre Marielle Franco (1979-2018) mexeu muito comigo, sobretudo por saber que muitas salas de roteiros são nocivas e têm adoecido muitas roteiristas negras. O episódio foi noticiado no sábado (24).

Há muitas histórias de esvaziamento e todas elas são muito parecidas entre si: 

Primeiro o elogio e a importância de vozes negras. 

Depois a exaustão e a indiferença quando não validamos a trama que gostariam. 

O descarte é o passo seguinte. Ele vem acompanhado da desculpa sobre um texto ruim; falta de preparo, mudança de perfil ou mesmo de conhecimento sobre a escrita de roteiro.

E por último: a substituição. Geralmente por alguém que está começando e que não vai se importar em ganhar menos e talvez não perceba que sua função é validar escolhas e não criar. Além de servir como blindagem para a equipe conquistar o selo antirracista. 

Leia também: O cultivo de referências negras e a educação antirracista

Essa estrutura de terror se repete tal qual os atos da narrativa clássica, pois:

Sei de roteiristas negras que pediram demissão de projetos grandes e importantes. Sei de roteirista negra que adoeceu  e quase não voltou para o mercado de trabalho. Sei de roteirista negra que recebia menos do que o restante da equipe branca, mesmo exercendo a mesma função. Sei de roteirista negra que soube pela boca de outras pessoas que não estaria na sala da segunda temporada do projeto que ela ajudou a criar. 

Sei de roteiristas negras que ficavam no cantinho – tal qual aquelas fotos de colégios norte americanos – enquanto o restante da equipe decidia os rumos da narrativa. Ela só era consultada quando eles tinham dúvidas se a trama era ou não racista. 

Sei de roteiristas negras que assinaram carta de intenção para editais, mas quando o dinheiro saiu, mesmo que por outras vias, elas não foram convidadas para compor a equipe do projeto. Sei de roteirista negra que teve seu roteiro exposto por conta de erro de concordância, tendo em vista que quase todos os roteiristas brancos têm gramática precária e quase todos os projetos possuem uma redação final. 

Sei de roteirista negra que foi exposta diante dos amigos por errar o cabeçalho de uma cena. Sei de roteirista negra que virou piada por não saber mexer no final draft – e conheço roteiristas brancos que formatam seus roteiros no word até hoje.

Sei de muitos casos, e por conta disso, essa atitude dos roteiristas negros desse projeto ganha outra dimensão e universaliza, ao mesmo tempo em que expõe práticas nocivas de silenciamento presentes nos bastidores. 

Pedir demissão não é só sobre quem pode ou não contar histórias negras, mas sobre quem é autorizado a contá-las desde que o mundo é mundo. 

De tudo, me parece que pouco importa a quantidade de roteiristas negros nas salas, já que são vistos apenas como mão-de-obra preta e desprovidos de subjetividades.

Nós todes, produtoras, players, emissoras, roteiristas negros ou não, temos muito o que aprender com o processo de desenvolvimento dessa série, porém, uma coisa é certa: 2020 deixará muitas marcas em toda a sociedade pelos motivos que estamos vivenciando, pelas perdas que sofremos, pelo desemprego, pelo descaso político e também pelo tensionamento das vozes negras e insurgentes na construção de um novo e urgente audiovisual nacional.

*Renata Martins é roteirista colaboradora na empresa Rede Globo, trabalhou como educomunicadora no Instituto Asas e roteirista na TV Cultura. É diretora e roteirista dos curtas “Aquém da Nuvens” e “Sem Asas” – Vencedor de Melhor Curta de Ficção na 19º Edição do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e ganhador de Melhor Roteiro no FRAPA 2020.

Edição: Rogério Jordão



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