Na jornada da liderança pastoral, assim como na caminhada cristã de modo geral, o mais significativo não é chegar primeiro e conquistar o lugar mais alto no pódio, mas simplesmente chegar, completando o percurso. Mesmo não estando entre os primeiros a chegarem, naturalmente receberemos o prêmio proposto (Fp 3.14). Desse modo, o que deve ser considerado é o que há entre a largada e a linha de chegada – a jornada – e focar naquilo que receberemos muito além do pódio. Um percurso bem feito e uma chegada digna valem mais que um momentâneo e efêmero laurel humano.

Nossa busca não deve ser por aplausos, colocações e glórias terrenas. Nosso principal interesse desse ser completar o percurso da melhor maneira possível, concluir nossa missão e estabelecer um legado consistente. O prêmio, que já é certo, está depois da linha de chegada, e só o receberemos de Cristo Jesus. Esta premiação transcende qualquer reconhecimento institucional e aplausos midiáticos pulverizados nas diversas redes sociais com seus likes e emojis.

De forma gradativa, Paulo apresenta o seu próprio ministério como uma luta corpo a corpo (combati o bom combate) e, também, como uma maratona (completei a carreira). Para Paulo, tal “luta” e “maratona” têm um objetivo excepcional e eterno: receber “a coroa da justiça” (2Tm 4.8), a qual lhe será dada depois do pódio.

Seguindo o mesmo pensamento paulino, podemos representar, de forma metafórica, a atividade pastoral como as corridas maratônicas vigente na época de Paulo. Nessas maratonas, os corredores tinham que percorrer de forma legítima percursos longos repletos de obstáculos, obedecendo as regras até chegar ao final. Como o apóstolo pontua em Filipenses 3.14, ele não demonstra preocupação quanto a posição que obteria no pódio. O mais importante, conforme é enfatizado em 2 Tm 2.4-7, é combater um bom combate e completar a carreira dignamente.

Nessa maratona, existem aqueles que de um lado, têm a visão limitada, cujo coração está apenas nas recompensas terrenas. Esquecem-se de que é necessário ter uma largada bem consistente, para “não queimar a partida”; de que é preciso fazer um trajeto bem feito e não desrespeitar as regras. É imprescindível que o interesse do líder não seja apenas receber honrarias, mas vivenciar o que há além do pódio – que é mais glorioso e eternamente recompensador! Esses que iniciam rapidamente e desrespeitam regras, cansam logo e desistem pelo caminho. Alguns podem até começar bem, no entanto seu percurso é cheio de falhas e acabam mal.

Do outro lado, há aqueles que começam bem e terminam bem. São os equilibrados. Não começam tão rápido, mantêm uma performance modesta, respeitam as regras, fazem um percurso bem feito e completam a carreira com dignidade. Estes não olham para a recompensa, não se interessam em chegar primeiro, apenas querem cumprir bem a disputa e percorrer o itinerário de acordo com as regras preestabelecidas; não têm o pódio em si como o grande prêmio a ser conquistado, mas a salvação a ser consumada. Para os pastores, há um ministério a ser completado, um legado sólido, construído com atitudes honestas, a ser deixado e uma história inspiradora registrada nos pergaminhos da liderança cristã.

Na jornada da liderança que leva ao sucesso, é imprescindível que se percorra as etapas apresentadas na declaração de Paulo transcrita na epígrafe deste texto. Vencer estas etapas conduz-nos ao que está além do pódio. A maneira como nos comportamos em cada uma delas – da largada à linha de chegada – definem o tipo de atleta (ministro) que somos – ou seremos. Apresento-vos os três tipos de “atletas” (líderes) baseados nesta célebre declaração de Paulo, que foi o mentor de líderes como Timóteo, Tito e de muitos outros; líderes que também puderam dizer, como o próprio Paulo: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a ”.

1º) Líderes que COMEÇAM, MAS NÃO TERMINAM: São IMEDIATISTAS, “fast food”, instantâneos, expressos. Começam rápidos demais e largam na frente com uma velocidade assustadora. Querendo a qualquer custo cruzar a linha de chegada, no afã de serem os primeiros, desrespeitam regras (Ef 3.16), confiam em suas próprias habilidades (Ef 3.3), julgam-se melhores do que os demais (Ef 3), lançam mão de trapaças, atitudes individualistas e preponderância. Geralmente começar rápido demais, tomando a dianteira no momento errado, leva a atitudes como essas. Para aqueles que agem assim, subir no pódio é apenas o que interessa, mesmo que seja a qualquer preço. Esses líderes TROPEÇAM NO PERCURSO (Ef 3.19) e, mesmo quando não caem, o esforço é tanto que não preservam o corpo, cansam durante a jornada e não completam a carreira. COMEÇAM, MAS NÃO TERMINAM. Eles só querem combater o combate, porém não prezam por ter um bom combate. Esquecem-se de agir como Paulo, “combater” honestamente o bom combate para receberem o que está reservado para os que almejam o que está além do pódio: o “prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.14).

Um exemplo bíblico de líder que começou rápido e não terminou sua tarefa é o usurpador Absalão, o tão querido filho de Davi. Ele tramou contra seu pai para tomar o trono. Mesmo fazendo parte da linhagem real sucessória, não respeitou as regras e saiu na frente roubando “o coração dos homens de Israel” (2Sm 15.6) e, por um pouco espaço de tempo, exerceu um suposto reinado (2Sm 15) enquanto seu pai se exilava. Absalão logo teve sua queda, que foi literalmente brusca, e o seu percurso foi interrompido, quando ficou preso pelo seu vaidoso cabelo. Outro exemplo desse tipo de líder é Adonias – mais um filho mimado de Davi –, este nunca era repreendido pelo pai, talvez isso explique suas atitudes egocêntricas (1Rs 1.6). Ele partiu à frente de Salomão rumo ao pódio real israelita, trapaceando e burlando as regras. Com uma tentativa de coroação forjada, iniciou seu percurso laureado, porém sua glória foi transitória. Sua pressa para subir ao trono, proporcionou-lhe minutos reais glamorosos, mas ilegítimos. Ele foi aclamado por uma comitiva grande o suficiente para estabelecer sua corte real: sacerdotes para ungir; súditos para reverenciar, general para empoderar; tinha linhagem real que poderia legitimá-lo (1Rs 1) e já havia banquete real para festejar. Realmente, foi um início glamoroso, todavia não durou muito, nem sequer chegou a ser coroado, permaneceu de pé apenas enquanto houve uma pequena audiência nos aposentos do velho, mas ainda firme, Davi que corrobora Salomão ao trono – o verdadeiro líder, aquele que não tinha, a princípio, o pódio em mente, mas as promessas divinas que o levariam além dele – do pódio (1Rs 3.8). Mais uma vez, reafirmo: o foco ministerial nunca deve ser prêmios terrenos, mas o galardão eterno. Devemos sempre prezar por um percurso honesto, respeitando as regras, de modo digno, mantendo a integridade e o caráter, esperando o momento certo – o tempo de Deus. Assim, de forma legítima o líder estará pronto para prosseguir até completar honradamente a carreira proposta.

2º) Líderes que COMEÇAM BEM, PORÉM TERMINAM MAL: A metáfora usada pelo apóstolo em 2Tm 4.7 pode também ser aplicada a uma corrida; como afirma Champlin, batalhas em campo aberto ou maratonas, ambas podem ser consideradas “luta corpo a corpo”. Assim, Líderes que COMEÇAM BEM, PORÉM TERMINAM MAL são aqueles, pastores e cristãos de forma geral, que iniciam suas carreiras com uma boa performance, porém ao longo da caminhada ficam exaustos e terminam em péssimo estado, de forma reprovável: sem pódio, sem prêmio, sem história! Completam o percurso por inteiro, porém terminam mal. Sem deixar um legado positivamente sólido para a posteridade. Iniciam com os olhos no troféu de primeiro colocado e são vencidos, pois predem-se nas “coisas que para trás ficam” (Fp 3.13), dão mais ênfase e valor aos lauréis e às glórias dos espectadores que estão ao longo do percurso para elevar sua prepotência de ganhadores. Jactanciam sobre seus feitos ainda na largada e pensam que por sua própria posição de superioridade atlética alcançarão a vitória; relaxam ao logo da jornada, não levam a sério e acabam não lutando conforme as regras quando começam a sofrer as derrotas. Finalmente, quando encerram a corrida, estão derrotados, esquecidos e sozinhos. Josué Gonçalves afirma que “um erro que todo líder não pode cometer é pensar que um bom começo é a garantia de um final feliz”.

Desse tipo de líder, temos Sansão como exemplo. Embora incluído na galeria dos Heróis da fé, em Hebreus 11, este poderia ter tido uma trajetória mais digna e um final mais glorioso, é verdade que ele chegou ao fim de seu percurso livrando o povo de Israel dos filisteus, cumprindo assim a determinação divina, mas ainda assim terminou mal. Proporcionou a libertação de Israel, porém poderia ter conduzido esse povo a uma adoração espiritual genuína. Iniciou com credenciais divinas, prestígio social e saiu na frente com uma força física incomum; ainda tinha uma credencial religiosa privilegiada, em comparação aos demais: era um nazireu de Deus, poucos nasciam assim com o propósito definido para ser um campeão israelita no pódio das tradições e favorecimento divino. No entanto, renunciou tudo, quebrando as regras sagradas – seu voto de nazireu – com brincadeiras, mulheres e orgias. Passou de “juiz insuperável” para “juiz moedor de grãos”! Lastimável situação! Terminou preso, cego e solitário. Muitos líderes terminam com uma recompensa financeira e secular abastada, ganham o prestígio das massas, contudo não fazem nada de espiritual, nem contribuem para a transformação e edificação de vidas e ministérios; findam mal, presos a seus bens, cegos pelo orgulho e solitários com suas autorrealizações. Porque “se alguém também milita, não é coroado se não militar legitimamente” (2Tm 2.5).

E o que dizer do rei Uzias? Esse iniciou sua carreira real com dezesseis anos e destacou-se como um guerreiro e edificador bem-sucedido, além de ser um talentoso construtor bélico e idealizador de “máquinas da invenção de engenheiros”, dentre elas a catapulta. Tornou-se tão forte que “voou a sua fama até muito longe” de seu reino (2Cr 26.15). Todavia seu fim foi um fracasso. Era soberbo, “exaltou-se seu coração até se corromper”; orgulhoso e infiel, não querendo se submeter aos sacerdotes, quis exercer funções que competia apenas aos sacerdotes divino, foi, portanto infiel à lei divina ao entrar “no templo do Senhor para queimar incenso no altar” (2Cr 26.16).

Uzias olhava para seus feitos e realizações, para o que estava ao longo do percurso, e não percebia que existia algo maior que tudo aquilo – o prêmio da soberana vocação. Desse modo, perdeu-se pelo caminho; findando sua carreira (reino) prepotente e soberbo, com um diadema na cabeça, não de ouro, mas de lepra; no pódio do fracasso real e sem troféu, tudo porque tinha seus olhos e coração nas “coisas que para trás ficam” (Fp 3.13); valorizando mais seus feitos do que o prêmio que iria receber na glória. Mais uma vez, um que iniciou bem, no entanto findou mal!

3) Líderes que COMEÇAM E TERMINAM BEM: Finalmente, apresento-vos aqueles que começam modestamente, não são tão rápidos e nem tão “atléticos”, mas chegam ao final com sua fé intacta! Não debilitados, nem cansados, mas com resistência para mais uma milha.

Apeles, um desconhecido citado por Paulo (Rm 16.10), foi desses cuja resistência e capacidade de superar provações, passou nos testes e venceu os obstáculos. Matther Henry classifica-o como aquele que foi provado como ouro. Paulo refere-se a ele como o “aprovado em Cristo”, ou seja, aquele que foi aprovado depois de passar por um teste. Apeles, um cristão não conhecido das multidões, consolidou-se durante o percurso e, na chegada, foi prestigiado como o “aprovado em Cristo” – o suficiente para ser mencionado honrosamente nas Escrituras! Apolo é outro exemplo desse tipo de líder. Com intrepidez e ousadia, ele pregava a Palavra em Éfeso, foi discipulado por Priscila e Áquila em relação à mensagem pentecostal e ao aperfeiçoamento teológico do “Caminho”, tornou-se um exímio apologista e eloquente pregador (At 18,25-26). Iniciou seu ministério bem e terminou bem, deixou sua contribuição pastoral efetiva e colaborativa na igreja de Corinto (1Co 3.6).

Um ministério eficaz é consolidado quando o pódio se torna um meio e não o fim para a recompensa final. Não são os lauréis e os aplausos por estar no patamar mais alto que definem o verdadeiro ganhador, mas uma carreira finalizada com dedicação e honestidade. O verdadeiro vencedor conserva o caráter, o entusiasmo, a dedicação e a humildade – em suma – guarda a fé, que está acima de qualquer conquista terrena.

Aqueles que começam no anonimato, como Apeles; com humildade, como Apolo e com modéstia, como Paulo – “derradeiro de todos” (1Co 15:8) –, mas que guardam os seu legado para a posteridade, são coroados pelo simples fato de terem lutado “segundo as normas” (2Tm 2.5). Assim, a questão não é ser o primeiro, porque nessa ânsia de chegar na frente é que regras são esquecidas, ultrapassagem proibidas são feitas e, às vezes, o objetivo nem chega a ser alcançado. O que realmente deve interessar é um combate honesto, conforme as regras, e uma chegada digna de um prêmio muito superior, mais que frenéticos alaridos de uma multidão materialista e sucumbida às coisas terrena.

Na caminhada cristã para o céu, o que importa é chegar, completar a carreira, combater bem e guardar a fé. Lá não haverá pódios para subir, mas moradas para serem recebidas. Aqui na Terra, também não existe pódio para o primeiro colocado na atividade pastoral, mas serviços a serem realizados com sucesso, uma carreira a ser completada com dignidade e uma reputação a ser consolidada com ética e integridade. Destarte, não haverá primeiro nem último lugar, existirão apenas aqueles que chegarão e aqueles que não chegarão. Portanto, vá além do pódio! Em direção ao “prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”! (Fp 3.14).



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