SÃO PAULO – 259 mortos, 11 desaparecidos, um rastro de destruição ambiental. Dois anos depois, a tragédia do rompimento da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), segue marcando a vida de centenas de famílias e a trajetória da Vale (VALE3), ainda que seus papéis tenham registrado forte recuperação na B3.

Em 25 de janeiro de 2019, dia em que a bolsa brasileira ficou fechada por conta do feriado de aniversário de São Paulo, os papéis da mineradora negociados nos EUA (ADRs, American Depositary Receipts) fecharam em queda de 8%, ainda em um cenário em que não se sabia as dimensões do acontecimento, mas com vários analistas já revisando as recomendações e projeções para a companhia, tendo em visto o abalo de reputação imediato e potencialmente o financeiro.

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Já o Bradesco BBI aponta que o atraso pode ser uma tática de negociação, mas avalia que a aparente falta de consenso indica uma probabilidade menor de o acordo acontecer versus as expectativas iniciais dos analistas. “Notamos, no entanto, que a Vale e o governo mineiro tem a ganhar com o fechamento do acordo, enquanto a divergência parece ser focada no montante, não na estrutura”, avalia o banco. Fechar um acordo, na avaliação do Credit Suisse, seria um importante catalisador para a reclassificação das ações, que poderiam assim se aproximar de seus pares como Rio Tinto e BHP.

A Levante Ideias de Investimentos ressalta que a rejeição do acordo é negativa para ambas as partes. “Pelo lado do governo estadual haverá a demora para a liquidação dos valores relativos ao rompimento da barragem, em um momento de dificuldades financeiras no estado. Pela parte da Vale, as incertezas em relação ao valor total de indenização retornam, além de não se saber se haverá mais consequências em relação ao caso, com a conclusão fugindo de seu alcance”, aponta a equipe de análise.

Por outro lado, considera que o principal balizador da movimentação de preço das ações ainda segue sendo as cotações de minério de ferro no mercado internacional. Na mesma linha, o BBI avalia que caso a proposta não vingue e, assim, não seja possível chegar a um resultado positivo durante esta semana, deve haver uma reação negativa das ações da Vale. Porém, caso haja uma correção mais substancial, ela implica uma oportunidade de compra, dados os fundamentos sólidos e contínuos do mercado de minério de ferro e as perspectivas para um dividend yield (ou rendimento do dividendo, medido pela relação entre o dividendo pago por ação e a cotação da ação) significativo nos próximos anos para o papel VALE3.

Visão positiva, mas…

A visão positiva para a ação é praticamente uma unanimidade entre as casas de análise, mesmo após a ação ter se distanciado das máximas do ano em meio ao aumento de casos de coronavírus na China, elevando as preocupações sobre a demanda do gigante asiático por minério de ferro com as restrições de mobilidade.

De acordo com a compilação feita pela Refinitiv, de 8 casas que cobrem o papel, 7 têm recomendação de compra e apenas 1 tem recomendação neutra. O preço-alvo médio é de R$ 107,51, o que corresponde a um potencial de valorização de 15,39% em relação ao fechamento da última sexta-feira (22), de R$ 93,17. Já com relação aos ADRs, de 23 casas que cobrem o papel, 21 recomendação compra e 2 têm recomendação equivalente à neutra, com preço-alvo médio de US$ 19,90, alta de 15,63% frente o fechamento de US$ 17,21 do pregão mais recente.

Ultimamente, aliás, analistas têm revisado os números da companhia. Na avaliação do Bradesco BBI, a mineradora continua sendo uma forte geradora de caixa, destacando dividendos significativos e uma reavaliação das ações deve ocorrer em 2021. Após o ganho expressivo de 73% em 2020 e com a ação ultrapassando os R$ 100 no início deste ano, os analistas elevaram o preço-alvo para o final do ano de R$ 105 para R$ 120, de forma a incorporar o preço mais elevado de minério de ferro, cobre e níquel.

Os analistas do banco projetam o minério de ferro em média a US$ 130 a tonelada em 2021, acima dos US$ 120 a tonelada anteriores, basicamente refletindo o início de ano mais forte (com minério de ferro spot agora em cerca de US$ 170 a tonelada).

A expectativa é de que a Vale gere cerca de US$ 30 bilhões de Ebitda em 2021 (ante previsão de R$ 21,3 bilhões em 2020), com FCFE (fluxo de caixa livre para o acionista) de cerca de US$ 16 bilhões e dividendos totais de US$ 9 bilhões (mínimo de US$ 7 bilhões mais US$ 2 bilhões extraordinários), para um dividend yield de 10%.

Já para o Credit, a avaliação é de que o valuation da mineradora segue muito atrativo para os investidores ignorarem.

Nesta linha, de modo a incorporar os preços mais altos da commodity, a XP Investimentos manteve a recomendação de compra e elevou o preço-alvo para R$ 122, a fim de incorporar preços mais altos de commodities e as novas premissas de preços e volumes no futuro.

“A Vale é a nossa preferida no setor devido à demanda saudável de minério de ferro na China, após incentivos do governo, e um cenário mais desafiador para a oferta”, apontaram Yuri Pereira e Thales Carmo, analistas da XP. Devido ao mercado ainda apertado, a expectativa é de que o minério de ferro fique em média em US$ 135 a tonelada em 2021, ante previsão anterior de US$ 100 a tonelada e contra um preço de cerca de US$ 170 atualmente.

Na perpetuidade (ou seja, trazendo a valor presente a soma do valor atual dos valores futuros projetados), o modelo projeta um preço de US$ 80 a tonelada. Apesar da expectativa da queda do minério, olhando para os valores atuais do papel da Vale, cotado na casa dos R$ 90, os analistas veem um minério de ferro de US$ 65 a tonelada na perpetuidade embutido na cotação atual dos ativos. Ou seja, há mais espaço para altas. Eles destacam que a produção de aço chinesa encerrou 2020 com 1,05 bilhão de toneladas (5,5% acima de 2019), após forte estímulo em meio aos impactos da pandemia. Se a China mantiver seu ritmo, a demanda por minério de ferro pode superar as adições de oferta em 2021 e sustentar os preços, avaliam.

Com relação aos volumes de minério de ferro, os analistas projetam a produção de 320 milhões de toneladas para 2021 pela companhia, que se compara à estimativa da Vale entre 315 e 335 milhões de toneladas. Já o dividend yield é na casa de 8,5% por conta de uma geração de caixa mais forte. O montante pode ser ainda maior se a empresa decidir por alguma distribuição extraordinária.

Não tão otimista, Fernando Fontoura, gestor de renda variável da Perservera Asset Management, destacou não ter mais posição no papel da mineradora. Ele aponta que a ação, nos atuais patamares, não está cara, mas que as incertezas que cercam a companhia continuam no radar.

Com a expectativa de que o minério volte no médio prazo para a casa dos US$ 100 (ainda que seja difícil saber o timing), ele avalia que dificilmente não haveria uma correção das cotações dos ativos VALE3 com a queda dos preços do minério, ainda que os papéis estejam longe de precificar a commodity a US$ 160 ou US$ 170 atualmente.  “Quando o mercado está andando bem, aquela nuvem de preocupações que existe com a Vale acaba ficando para trás. Mas certamente [Brumadinho] é um tema que não saiu do radar, principalmente entre os investidores estrangeiros, sendo que muitos deles não voltaram a investir na companhia”, aponta o gestor.

De acordo com Fontoura, um eventual acordo com o governo mineiro e até por um valor maior, certamente ajuda, mas não resolve uma das principais questões da Vale. “A sombra que a mineradora vai carregar será duradoura e, para atenuar esse passado, demandará que ela tenha que ser referência em ESG  (como são chamadas as melhores práticas ambientais, sociais e de governança), claro que considerando as limitações dentro do setor em que ela atua”, avalia.

Assim, somente o tempo e mais medidas da companhia farão com que a companhia consiga atenuar a imagem que ficou ainda mais negativa após Brumadinho, um pouco mais de três anos após a tragédia de Mariana. Entre as medidas, a empresa já apontou que vai desistir da exploração de carvão em Moatize, em Moçambique. A companhia anunciou no ano passado que pretende se tornar uma empresa de carbono neutro até 2050 e reduzir 33% de suas emissões até 2030.

Apesar da tragédia de Brumadinho ficar para sempre na história da Vale, um acordo rápido sobre Brumadinho pode fazer com que aumente a confiança entre os investidores na tese de investimentos da companhia, em um momento em que seu objetivo é retomar a produção perdida em Minas após Brumadinho, além de impedir novas ocorrências. Em dezembro, um trabalhador morreu em um deslizamento de terra na mina Córrego do Feijão. Em meio a esse cenário, a proposta a divulgada pela companhia até dia 29 será observada de perto pelos investidores.

(Com informações da Agência Brasil, Reuters e Agência Estado)

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