Nós, mulheres, chegamos em 2021 com a necessidade de fortalecer a esperança feminista no futuro e, para isso, propomos ler Heleieth Saffioti, uma autora feminista e marxista brasileira que nasceu e morreu em janeiro (1934-2010).

Muito temos escrito sobre os tempos de retrocessos que estamos atravessando com certo espanto. Vemos falas públicas que refutam conquistas, que desafiam direitos, e que questionam a ciência em um contexto de pandemia que força as mulheres a ampliar suas responsabilidades com a preservação da vida. O “ficar em casa” significou para as mulheres estarem imersas nos trabalhos de cuidados e nas tarefas domésticas; passaram a assumir atividades de acompanhamento de aprendizados das filhas e filhos com o ensino remoto, a luta por territórios e água que se tornaram menos ‘visíveis’ na pandemia; o enfrentamento ao racismo, e as violências doméstica e do Estado.

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Para nós, este tempo tem sido marcado por um fortalecimento de redes e de estratégias comunitárias que, para serem lidas e compreendidas, exigem que nos cultivemos. Este exercício de ‘cultivo’ fala da importância de recuperarmos mulheres que em suas trajetórias dedicaram-se a compreender a condição de outras mulheres. Regar esperança entre nós pede que estudemos e fortaleçamos nossas compreensões do mundo. Quando entendemos que o mundo – aqui pensado como a posse e uso da dimensão das riquezas intelectuais e materiais – é branco e masculino, fortalecemos entre nós, mulheres, as redes e a solidariedade feminista para lutar pelo nosso acesso a ele.

Ler Saffioti em tempos tão difíceis, é apostar no futuro que sempre estamos construindo.

Esta é a contribuição que Heleieth Saffioti, socióloga, feminista e professora, aportou para nós, mulheres brasileiras. Ressalto o ‘brasileiras’ para lembrar que esta autora dedicou-se a interpretar a realidade das mulheres a partir do lugar em que esta experiência se produzia, tornando-se importante em sua contribuição na interpretação do Brasil a partir do olhar das mulheres. Recuperar os escritos de Saffioti tem sido um exercício realizado por diferentes intelectuais, como vemos no recente dossiê sobre a autora, como acontece no dossiê “A mulher na sociedade de classes 50 anos depois: a atualidade de Heleieth Saffioti, publicado pela Revista Lutas Sociais da PUC -SP, em janeiro deste ano, destacando textos e entrevistas da socióloga.

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Este dossiê, do qual participo com muito apreço, tem algumas características singulares que demarcam algumas preocupações em sua elaboração. São textos curtos que podem ser propostos para momentos de formação e apresentação da obra da autora. São textos que se apresentam como ‘relatos de experiência’, ou seja, as mulheres-autoras compartilham como tomaram contato com a obra de Saffioti e os sentidos produzidos por esta leitura. Estas características tornam o dossiê um aporte importante para que nos cultivemos. Lembremos aqui que o convite é ao exercício do cultivo intelectual da produção das mulheres para interpretar a realidade.

Ler Saffioti em tempos tão difíceis, é apostar no futuro que sempre estamos construindo. Para as mulheres, a produção do presente é um exercício de contínua resistência, e em um contexto de pandemia, de redução de acesso ao trabalho e renda, cabe a nós o exercício da roda de cuidados e de solidariedade. A produção de resistência feminista neste momento exige de nós que busquemos entrelaçar o que já produzimos e escrevemos, com as ações de fortalecimento e solidariedade para avançar em conquistas e garantir o futuro. Para muitas de nós, o futuro precisa ser agora, para muitas de nós, precisa ser amanhã. Acredito que este equilíbrio precisa ser buscado também com a permanência do que já construímos ontem.

Heleieth Saffioti presente!

*Mônica Vilaça é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPB, socióloga do trabalho, mulher negra e feminista.

Edição: Luiza Mançano



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