Às 12 horas e 28 minutos desta segunda-feira (25), 273 badaladas do sino da igreja do Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, lembraram as vítimas de um dos maiores crimes socioambientais do país. Há exatamente dois anos, em 25 de janeiro de 2019, uma barragem da Vale rompeu e devastou uma comunidade inteira, desalojando famílias, contaminando o Rio Paraopeba e deixando milhares de atingidos ao longo de toda a bacia.

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Em silêncio, atingidos — entre familiares das vítimas e moradores de comunidades por onde a lama tóxica passou — se emocionaram ao reviver a tragédia e sentir o vento forte que, de repente, balançava as fotos penduradas das 273 vidas soterradas pela mineração. Ao todo, cerca de 50 pessoas acompanhavam uma missa celebrada pelo bispo Dom Vicente de Paula Ferreira, que fechava a programação da II Romaria pela Ecologia Integral a Brumadinho, realizada pela Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário (Renser), da Arquidiocese de Belo Horizonte.

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Relatos de perdas

“A nossa vida virou de cabeça para baixo. Nós não dormimos desde o dia 25 de janeiro de 2019. Hoje nossas orações são para que os 11 sejam encontrados, para que as famílias consigam ter paz. E a nossa vontade é que haja justiça, porque dinheiro, o bom mineiro trabalha e luta. Nós não precisamos de uma desgraça como essa para conseguir dinheiro na nossa casa. Mas se é nosso direito, que esse direito seja preservado”, aponta Carmem Sandra Barbosa de Paula, moradora do Córrego do Feijão.

Na tragédia, ela perdeu seis membros da família, entre sobrinhos e primos, e sua mãe, aos 69 anos, faleceu em junho de 2019. A família de Carmem Sandra é uma das que resiste e continua morando na comunidade. Segundo ela, hoje, mais de 70% dos moradores do Córrego do Feijão já se mudaram. “Nasci, cresci e aqui quis construir minha família. Quando vim pra cá, não pedi licença. Quem entrou aqui, foi a Vale. Mas a comunidade é nossa”, afirma.

Durante a missa, Dom Vicente retomou ideias da encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, defendeu a necessidade da sociedade construir uma nova relação entre ser humano e a natureza. Além disso, ele criticou a Vale e a busca “desordenada” por lucro. “Eles não podem fazer o que bem entenderem com a nossa vida, com as nossas casas, com a nossa natureza e com o nosso meio ambiente. A Vale não pode continuar dominando a nossa região de Brumadinho”, aponta.

Em janeiro de 2020: Um ano do crime de Brumadinho: vidas seguem destruídas, mas Vale volta a lucrar



Imagem: Cadu Passos

Crime continuado

No dia 18 de dezembro, o operador de retroescavadeira Júlio César de Oliveira Cordeiro, de 34 anos, foi mais uma vítima da Vale. Ele foi lembrado, na segunda (25), junto com as outras 272 vítimas. Júlio César morreu soterrado após o desmoronamento de parte da encosta de um talude próximo à cava da mina do Córrego do Feijão.

Segundo seu irmão, Nelson Vinícius, até hoje a família busca esclarecimentos sobre mais esse crime que, em sua opinião, é continuidade do dia 25 de janeiro de 2019. “Até o dia de hoje, não tivemos informações do Ministério Público, da Polícia Civil, das empresas envolvidas – a Vale Verde [que é terceirizada] e a Vale”, relata. “Meu pai, que é idoso, está em choque. E a Vale é uma empresa muito covarde, ela tira um trabalhador de dentro da sua casa e entrega dentro de um caixão. Para ela, é uma matrícula a menos e ela continua explorando”, completa.

Sem participação

“O Estado vai cobrir os seus cofres com sangue derramado aqui em Brumadinho, sem nem nos dar o direito de participar e de ter informação. O termo de confidencialidade é um absurdo. Fica difícil pensar no nosso direito ao futuro, se até o futuro está nos sendo roubado. E a Vale sempre foi negligente, decide quem paga, quanto paga e pelo o que paga”, denuncia Fernanda Perdigão, atingida do distrito de Piedade do Paraopeba, em Brumadinho.

Fernanda se refere ao acordo que está em curso entre a Vale e o Estado de Minas Gerais, com a participação das instituições de Justiça. Desde o início das negociações, que começaram no ano passado, os atingidos foram impedidos de participar das audiências.

Indignada com a atuação das instituições, Fernanda ressalta que a “postura da Vale não mudou” e que a justiça só virá se houver uma mobilização de toda a sociedade. “Está passando da hora de a sociedade mineira mostrar que quer ter um futuro para Minas que não seja uma cava aberta, sem uma gota de água potável para as próximas gerações. Acredito que a justiça venha se mais vozes ecoarem neste sentido: de uma nova percepção da mineração no estado e de uma nova proposta de vida levando em consideração a sustentabilidade ambiental”, aponta.

Pacto dos Atingidos

Após a missa, foi lançado o Pacto dos Atingidos, documento que é uma denúncia em três idiomas – português, inglês e espanhol – da situação dos atingidos pelo crime da Vale na bacia do Rio Paraopeba.  “O documento é pra mostrar e gritar bem alto para o mundo todo que são  muitas as nossas dores e que a Vale é a única responsável por isso”, ressalta Marina Oliveira, moradora de Brumadinho e articuladora social da Renser.



Imagem: Cadu Passos

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Camila Maciel e Elis Almeida



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