“Você é uma proletária?” pergunta a comandante da brigada. Sem obter resposta, ela esclarece sua pergunta:”Você possui terras?”

Wu Qionghua, uma jovem mulher vestida de linho vermelho e tranças longas, rebate, em tom desafiador: “Eu sou uma escrava. Não tenho nada”. Qionghua ficou órfã e foi escravizada depois que o latifundiário Nan Batian (“O Tirano do Sul”) matou sua família. À medida que a trama avança, descobrimos que Qionghua tinha acabado de fugir da escravidão com a ajuda de Hong Changqing, um quadro do Partido Comunista.

Nos deparamos com outra mulher na tela, Honglian, cuja cabeça está ligeiramente curvada. “E você?”, pergunta a comandante.

“Não sei se possuo terras”, ela responde timidamente. “Fui vendida aos 10 anos de idade”.

“Você certamente é uma proletária”, afirma a comandante. “Passe”.

Assim, são incorporadas como 121ª e a 122ª integrantes da primeira brigada militar só de mulheres do Exército Vermelho Chinês. Assim mostra o longa-metragem de 1961, O Destacamento Vermelho das Mulheres, baseado na história homônima e dirigido por Xie Jin.

Uma história que ainda precisa ser contada

Eu atravesso os portões do parque. Com alguns minutos de atraso, passo rapidamente pelos vendedores ambulantes, lojas de lembrancinhas e uma monumental exibição de luzes. Os sinais do lanterninha me pedem para aguardar. O show já começou. Observo como treme a arquibancada com capacidade para 2.400 pessoas, sincronizada com a sinfonia épica que se espalha acima de nós. Estou aqui para o espetáculo noturno “O Destacamento Vermelho de Mulheres” (红色娘子军), uma produção realizada em Sanya, cidade litorânea de veraneio na província insular de Hainan, na China. O Destacamento Vermelho foi a primeira brigada militar só de mulheres e se tornou um mito central da história moderna chinesa. Ela foi contada e recontada em inúmeras produções socialistas – ou “da cultura vermelha” – ao longo do último século.

As arquibancadas param e eu sou conduzida ao meu assento. À esquerda do palco, surgem os coqueirais da China subtropical. A história se passa em 1931, em Hainan, província localizada no Mar da China Meridional, uma região muito disputada e explorada por interesses coloniais, vizinha da então da Malásia Britânica e de Singapura, do Vietnã controlado pela França e das “Índias Orientais” holandesas, que hoje correspondem à Indonésia e às Filipinas, ocupada pelos Estados Unidos. Naquele mesmo ano (1931), a Manchúria, no nordeste da China, foi anexada pelos japoneses, um presságio do imperialismo fascista que dominaria a região. O que se conhece no Ocidente como Segunda Guerra Mundial, foi, para a China, uma guerra de resistência de 14 anos, que custou mais de 35 milhões de vidas chinesas. É nesse ano que encontramos nossas protagonistas Qionghua e Honglian, no momento da formação da brigada do Destacamento Vermelho. Qionghua, no entanto, não é uma personagem fictícia.

A personagem é baseada em Pang Qionghua, nascida em 1911, o ano da Revolução Xinhai, que marcou a queda da última dinastia chinesa. Com um casamento arranjado aos quatro anos de idade, Pang Qionghua escaparia de seu destino para se unir ao Exército Vermelho em 1930. Ela se tornou a comandante da brigada, composta por 103 corajosas mulheres. Elas atuavam como espiãs e protegiam os arsenais militares e ganharam o título de “Destacamento Vermelho de Mulheres” após várias batalhas bem-sucedidas contra o inimigo, as tropas nacionalistas. A última integrante da brigada, sobrevivente, faleceu em 2014. Desde 1930, esta história tem sido contada e recontada, adaptada às necessidades de uma China em transformação. Documentada pela primeira vez por Liu Wenshao, em uma notícia de 1957, e transformada posteriormente em uma ópera local em Hainan, foi a versão em longa-metragem que popularizou a história baseada em fatos reais. O filme se transformou em uma história em quadrinhos impressa em massa, antes de se tornar um balé nacional dirigido por Jiang Qing, ou “Madame Mao“, espetáculo escolhido para ser apresentado ao ex-presidente estadunidense Nixon, em sua visita de aproximação à China em 1972. 

Durante os anos da Revolução Cultural (1966-1976), esse balé sem falas foi escolhido como uma das “oito óperas-modelo” adequadas para uma nação de 800 milhões de pessoas. Ele foi apresentado 4 mil vezes ao longo das últimas cinco décadas e meia. É um marco cultural importante para estabelecer uma identidade nacional pós-revolucionária e para trazer a cultura chinesa moderna aos palcos internacionais. Mais recentemente, a história foi adaptada para uma série de TV, exibida em 2006, e reencenada pelo Balé Nacional da China em 2014. Em cada época, a história de Qionghua e Honglian continuou sendo contemporânea porque ainda é uma história que precisa ser contada.

Um parque temático da cultura vermelha

O grande público das arquibancadas, onde estou sentada, começa a se movimentar novamente para a mais recente megaprodução desta história, encenada em Sanya. Bombas artificiais caem do céu em direção a um rio artificial. Um holofote ilumina uma foice e um martelo em LED vermelho sobre as montanhas distantes. Um senhor de terras desfila para o público com um chapéu de papel em formato de cone. As avós comentam em voz alta como se estivessem assistindo uma novela na TV de casa. Há acrobatas, 11 palcos móveis e 300 integrantes, entre elenco e equipe de produção. E o espetáculo acontece todas as noites, por 99 yuans o ingresso (15 dólares).

Este projeto, o primeiro do tipo na China, estreou em 1 de julho de 2018, no projeto do Parque Temático do Destacamento Vermelho de Mulheres nas Artes Cênicas de Sanya, que combina arte, cultura e história vermelha em uma única plataforma. O projeto de 1,2 bilhões de yuans (mais de US$ 185 milhões) ocupa uma área de um pouco mais de 42 hectares e é administrado de forma conjunta pelo Estado e setores privados, incluindo o Grupo Beijing Chunguang e o Grupo Shaanxi de Turismo, este último responsável por muitas produções em larga escala da cultura vermelha em todo o país. É um verdadeiro projeto de cultura socialista com características chinesas.

No 1º de maio de 2020, no Dia Internacional das Trabalhadoras e Trabalhadores, Hainan comemorou 70 anos de libertação, quando a Batalha da Ilha Hainan chegou ao fim, em 1950, com sua incorporação formal à República Popular da China. Em junho de 2020, o Comitê Central do Partido Comunista da China (CPC) e o Conselho de Estado divulgaram o plano diretor para transformar a ilha em um porto de livre comércio. Até 2050, Hainan deve se tornar um centro financeiro, turístico, tecnológico e logístico internacional sem precedentes. Em sua declaração de abertura da 13º Assembleia Nacional Popular – a mais alta cúpula legislativa da China – o Premier do Conselho de Estado, Li Keqiang, destacou a importância da cultura vermelha neste projeto estratégico nacional: “Precisamos estimular o desenvolvimento da indústria do turismo, aproveitando integralmente o potencial turístico da região, com desenvolvimento do turismo rural e do turismo ‘vermelho’”.

Em uma impressionante demonstração de recuperação pós-pandêmica, na semana do feriado nacional de outubro de 2020, Sanya recebeu um recorde de visitantes; foram 729 mil turistas – mais do que o dobro de habitantes –, gerando mais de 4 bilhões de yuans em receitas (cerca de US$ 600 milhões), um aumento de 39% em relação ao ano anterior.

As visitas ao Parque Temático do Destacamento Vermelho de Mulheres competem com os principais destinos turísticos da cidade; as praias tropicais, resorts e cidades cenográficas. O Festival de Arte e Cultura “Jovem China” de Sanya atraiu, em agosto de 2020, mil jovens ao parque e 50 mil participantes online durante os três dias do evento, incentivando as futuras gerações do país “a seguirem incessantemente os passos revolucionários e carregarem o espírito do Destacamento Vermelho de Mulheres”.

Selfies socialistas

Enquanto a multidão se esbarra nas arquibancadas, crianças correm para tirar fotos ao lado das jovens atrizes, deixando seus pais para trás. Este é um outro tipo de parque temático, outro tipo de história de heroína. Alguns vêm para ver o espetáculo, outros para passar tempo com a família. Eu tiro uma selfie com uma das jovens atrizes-soldadas, com suas túnicas cinzas-azuladas e boinas de estrelas vermelhas, e saio com um novo caderno com o logo do Destacamento Vermelho, onde escrevo esta história. Às vésperas do centenário do CPC, que será celebrado em julho de 2021, a cultura vermelha com características chinesas não só permanece viva, como segue se reinventando e encontrando novos ares.

*Este artigo foi produzido pelo Globetrotter.

Tings Chak é designer-chefe do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, editora do Dongsheng [Vozes do Oriente] e bolsista do Globetrotter/Peoples Dispatch.

Edição: Peoples Dispatch



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