“Eu sou bem baiano no meu modo de me expressar, sabe? Essa coisa solar, essa coisa de claro e escuro, de contrastes fortes, tudo isso está aqui na luminosidade da nossa terra”. A autoavaliação é do artistas plástico Ray Vianna, entrevistado pelo Brasil de Fato Bahia na última sexta-feira (12), às vésperas do que seria o Carnaval de 2021.

Com uma história nas artes diretamente ligada ao Carnaval e a Salvador, Vianna iniciou nas artes plásticas aos 15 anos de idade, por influência de seu irmão. De lá para cá, o artista é constantemente lembrado por suas contribuições para a cultura baiana. 

Confira, a seguir, a entrevista sobre as inspirações, as criações, os desafios e as perspectivas do artista baiano.

Brasil de Fato Bahia: Quem é Ray Vianna?

Ray Vianna: Eu vou fazer 60 anos e ainda estou me fazendo essa pergunta. Estou chegando perto, mas vamos ver o que é que dá. Falando sobre o trabalho, sou um artista e faço artes plásticas, quadros e esculturas. Tenho muitas esculturas públicas aqui, na cidade. Mas comecei fazendo cenografia. Hoje atuo na área de cenografia, design gráfico e artes plásticas. Tenho essa variedade. Sou um artista super plural, que atua em diversas áreas, porque tanto eu crio, como eu executo o projeto. Trabalho com fibra de vidro, madeira, com carpintaria. Eu sou esse artista.



Trio da Elétrico Timbalada em 1997 / Ray Vianna

Como e quando começou sua relação com as artes e com o Carnaval?

Comecei, na verdade, em 1976, quando tinha 15 anos. Foi a partir da relação com o meu irmão, que já era artista e estava na Escola de Belas Artes. Ele ainda não era formado na época, mas se envolveu com a Escola de Belas Artes e com Juarez Paraíso, um grande artista daqui e que foi um dos precursores em fazer grandes decorações do Carnaval. Então, eu comecei com 15 anos, trabalhando numa decoração do Carnaval. E aí foram 76, 77, 78, 80, 82, 84, 86, 88. Foram muitas decorações com essa turma.

Todo o meu processo de aprendizado, de envolvimento com a arte foi fazendo a decoração do Carnaval, que significava desde o projeto, naquela época pintando com guache, aprendendo a criar, o processo de pesquisa, depois as ampliações dos desenhos, recortando os compensados, carpintaria, construção da peça, plastificação, tudo aquilo era feito na Escola de Belas Artes. Era um universo incrível. Mais tarde, eu optei por fazer artes plásticas mesmo e venho desenvolvendo esse trabalho, que envolve cenografias. Fiz muito trio elétrico.

Em determinado momento da vida, eu encontrei [Carlinhos] Brown, em 1991, através de um amigo, e veio o universo da Timbalada, com os trios elétricos e as pinturas no corpos dos artistas. Cada vez mais fui me envolvendo com outra parte do Carnaval que não era apenas a decoração. Fiz bastante trio elétrico, não só para o Timbalada, mas também para Brown, Ivete [Sangalo] e outros artistas do Axé Music. Esse é meu envolvimento com essa festa.

O que serviu de inspiração na criação das suas obras?

A vida nos inspira, né? Primeiro lugar, você é muito influenciado pelo lugar em que você vive, pelas cores, pela luminosidade, nossa terra quente como é. No meu caso, eu expresso muito o contraste das linhas, das cores ou do vazio. Já fiz uma comparação de várias coisas na minha obra particular. Agora, quando eu vou pra uma decoração do Carnaval ou um trio elétrico, já tenho que trabalhar com outra parte que nem todos os artistas trabalham. Tem artistas que são ligados à sua expressão, alguns até com uma só expressão. No meu caso, é muito abrangente. Então, por exemplo, as decorações, os trios elétricos, que demanda um cliente, um evento, a gente tem que seguir a inspiração do tema. E aí eu vou desenvolvendo de acordo com as questões práticas: se é trio ou outro lugar, qual tamanho, vai ser visto de qual ângulo. Vou colocando ali os componentes daquele tema que estou pesquisando.

Mas, claro, quando a obra é concluída, percebo ali um determinado arrojo, uma determinada forma, uma criatividade de usar uma parte que já tinha no caminhão e transformo aquilo para melhorar a comunicação, para reforçar aquela ideia. Quando eu vejo, no final, um trio, eu reconheço traços, contrastes, geometria, repetições de uma forma que se encaixa com outra que tem esse padrão geométrico. Gosto muito de trabalhos com movimentos, trago muito movimentos em fluxo. Você vê que as coisas aparecem em movimento, intencionalmente, parece que estão mergulhando ou virando para um determinado lado.

Eu sou bem baiano no meu modo de me expressar, sabe? Essa coisa solar, essa coisa de claro e escuro, de contrastes fortes, tudo isso está aqui na luminosidade da nossa terra.

Como avalia este ano sem a festa na rua?

Este ano foi muito difícil. O ano de 2020 e agora nesse começo de 2021. A última escultura que eu coloquei na rua chama-se Laroyê. Ela foi colocada lá no Comércio e faz parte do projeto “Rua – roteiro urbano de arte”, da prefeitura para revitalizar a área do comércio. Chamaram sete artistas para ocupar aquele espaço com arte, uma coisa bem bacana. Mas isso começou em 2019, com a esperança de ser concluída naquele mesmo ano. Deixamos para depois do carnaval de 2020, mas quando chegou em março, eu estava com a obra pronta aqui no galpão, com a caixa de ferramenta pronta para ir e foi decretado o isolamento rígido. Parou tudo. Fiquei com a obra 10 meses embalada no ateliê. No final do ano, consegui colocar lá, mas está lá vazia a rua.

Não sou um artista rico. Eu sou um artista que trabalha e gero dinheiro até o próximo trabalho. É a vida. Cada um com a sua história. Ou seja, minhas reservas também acabaram nesse período de dez meses parado. E estou vendo muita gente passando necessidade, que só trabalha com evento. É uma cadeia enorme, porque tem desde o pessoal que monta o camarote, o eletricista. Eu mesmo sou um grande empregador. Tenho aqui no ateliê um funcionário, um grande cenotécnico, mas quando chega trabalhos maiores, eu contrato gente. Já tive carnaval de contratar 80 pessoas. Essa cadeia vai toda sendo desmantelada. Imagine a galera que vive realmente do carnaval?

É um momento muito cruel. Isso está fazendo uma grande revisão na cabeça da gente. Mudando a expressão, apesar de não ser uma coisa direta, mas hoje estamos usando muito mais as vias virtuais, ou seja, todo mundo se reinventando para criar conteúdo para onde possa ser manifestado. Muita coisa vai mudar. Não acredito que o normal vai voltar não. Acho que vamos poder nos abraçar em algum momento, mas toda cadeia está sendo mexida com isso e vai se transformar.

E quanto ao meu lado folião, eu adoro carnaval e, assim, quando não vou para o carnaval daqui, vou para o de Recife, onde tenho muitos amigos e adoro. Em outros momentos, eu vou para a Chapada [Diamantina, na Bahia] ou para uma praia e me desligo. Mas só em saber que não tem já fica diferente. Hoje mesmo eu fui tomar um banho de mar e passei por Ondina [bairro no qual tem um dos circuitos da festa] e pensei: “Poxa, isso aqui na sexta-feira ia estar cheio de isopor, cheio de sujeira, fedor de xixi e aquele movimento”. E Ondina estava lá calma e tranquila. São tempos difíceis, com certeza, para todos nós.



Escultura Laroyé de 2020, no bairro do Comércio em Salvador / Ray Vianna

Além de impactos econômicos, quais outros você identifica decorrente da impossibilidade de realizar a festa?

O aspecto subjetivo nas pessoas é extremamente grande. É muito complicado isso. Depende de cada pessoa, do controle emocional, do quanto estão apegadas a essas festas. Eu seguro minha onda. Não vou morrer porque não fiz carnaval ou não fui visitar minha mãe no natal. Sabemos que é algo de ordem muito maior, essa coisa da saúde, de não poder se encontrar. Eu acho, assim, que é uma coisa que mostra o que a gente já vê no cotidiano, que é uma sociedade dependente dessas crenças em relação ao que o mundo é.

Acho que tem pessoas que estão solitárias no momento e isso é grave. Eu tenho uma mãe que está esse tempo todo sozinha. Mas, antes de chegar nesse extremo, tem aquelas pessoas que não aguentam por nada, que precisam ir para a praia no fim de semana. Nós vimos o que aconteceu no final do ano.

Eu particularmente não fico alimentando esse sofrimento, nem esse apego aos costumes. Isso é válido na construção da sociedade, mas chega um momento que você precisa pensar se isso é mais importante do que a saúde. Então, qualquer carnaval pode passar batido, ninguém morre porque não teve um carnaval, muito pelo contrário.



Decoração de carnaval no Pelourinho em 2009 / Ray Vianna

Tem perspectivas para o próximo Carnaval?

É uma grande incógnita. Falaram que ia ter em julho, eu não acredito de jeito nenhum. Mas vamos dizer o próximo, de 2022, acredito que vai ter. O futuro realmente a gente não sabe. Mas acho que, se tiver, será um êxtase. Acho que todo mundo vai correr para o carnaval e fazer aquela festa que não fez o ano passado. Tomara que os investimentos voltem, que todo mundo comece a trabalhar, que tenha um grande carnaval realmente e que as pessoas vão para lá soltar a franga, sair dos armários. Imagine, tem gente que espera o ano todo para sair do armário, vai ficar um ano preso. É sacanagem. Eu acredito que vai ser um grande êxtase e tomara que seja tudo massa, que a gente volte a pular, se agarrar e que eu trabalhe e que todo mundo também.

Fonte: BdF Bahia

Edição: Rodrigo Durão Coelho e Jamile Araújo



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