Imagine ligar a televisão e assistir a uma guerra em tempo real, ao vivo e em cores. Foi dessa forma que o mundo acompanhou a Guerra do Golfo, conflito entre Estados Unidos e Iraque que se encerrou há exatos 30 anos, em 28 de fevereiro de 1991. 

A ofensiva internacional liderada pelos americanos contra o país árabe tinha como principal intuito expulsar as tropas iraquianas do Kuwait, invadido no ano anterior sob o comando de Saddam Hussein.

Pela primeira vez um conflito era transmitido ao vivo pela Cable News Network (CNN), que se lançava como uma rede de alcance planetário. A emissora americana entrou para história da mídia global graças a um satélite retransmissor estrategicamente colocado em órbita estacionária. 

A tecnologia de ponta, extremamente avançada para a época, permitiu o desenvolvimento das técnicas de digitalização de imagens e de sistemas informatizados de transmissão de dados. 

“É um procedimento que exige capital e tecnologia de ponta militar, requer precisão estratégica. A CNN revolucionou os procedimentos da mídia”, afirma José Arbex Jr., professor da PUC-SP e jornalista que estava à frente da editoria Internacional da Folha de S. Paulo no período em que ocorreu o conflito.

Entretanto, enquanto a cobertura da Guerra do Golfo era amplamente tratada como um espetáculo da tecnologia, inclusive pela imprensa brasileira, somente partes fragmentadas do que realmente aconteceu no Kuwait em 1991 se tornavam conhecidas. 

“A Guerra do Golfo foi transmitida por meio de uma narrativa totalmente equivocada em que não apareceram mortos. Se você ligasse a televisão, em qualquer momento que transmitia a guerra, o que você via era algo parecido com um vídeo game, em que os alvos eram atingidos, sem aparecer os corpos”, relembra Arbex. 

O jornalista explica que os Estados Unidos conseguiram criar uma versão sobre o que acontecia na guerra, endossada pela CNN, de que estavam sendo utilizadas armas com precisões cirúrgicas que, supostamente, não matariam nenhum civil.  

Hoje, sabe-se que pelo menos 150 mil pessoas morreram ou foram gravemente feridas pelas “armas cirúrgicas” que atravessaram os céus de Bagdá, capital do Iraque.

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Segundo Arbex, que nos anos 2000 publicou uma tese de doutorado sobre a Guerra do Golfo e o novo momento na história da mídia, sob orientação do historiador Nicolau Sevcenko, há dois fatores principais que fizeram com o que mundo acreditasse nas afirmações dos Estados Unidos.

O primeiro é o monopólio da informação, já que a internet não havia sido desenvolvida o suficiente para oferecer versões alternativas ao público. 

“A partir do momento em que se tem uma empresa privada com capacidade para transmitir o noticiário no mundo inteiro, evidentemente essa empresa privada tem o poder de manipular a informação que ela transmite. Atribui-se a ela um poder ilimitado para criar essa narrativa”, diz o jornalista.

O segundo, não menos importante, está relacionado a quem eram as vítimas fatais da ofensiva americana. Uma população árabe, que, de forma geral, foi retratada e construída pela mídia e por governos ocidentais como atrasada, autoritária, “que não havia atingido a civilização”.

Arbex recorda que enquanto editor da Folha, recebia centenas de fotos dos soldados americanos que estavam indo para guerra, com detalhes como nome completo, informações pessoais, gostos e costumes, que tinham como objetivo criar uma identificação com as forças americanas.

Já em relação ao mundo árabe, as imagens retratavam somente crianças com metralhadoras nas mãos, mulheres com véus e camelos da Arábia Saudita, reforçando estereótipos e entorpecendo a população mundial.

“Quando você começa uma guerra e o outro lado nem se sabe quem é, fica mais fácil aceitar que ninguém morreu. A mídia aprendeu a manipular narrativa utilizando preconceitos, racismo, xenofobia e tudo que serve para desumanizar o outro”, comenta Arbex. 

“Isso serviu para a construção de islamofobia pela mídia, que trata dois bilhões de seres humanos como atrasados, violentos e para justificar os ataques aos países islâmicos, que, não por acaso, são os que concentram riqueza de petróleo”, afirma.  

O jornalista acrescenta que quando o governo americano é questionado pelas mortes de centenas de milhares de mulheres, crianças e outros civis inocentes, seja no Iraque ou em outros países do Oriente Médio, o argumento apresentado é o do collacteral damaged, um efeito colateral inerente à guerra. 

                                 

Contexto histórico

Para entender todos os elementos que levaram à invasão do Kuwait pelo Iraque e, posteriormente, no início da guerra pelos Estados Unidos e seus futuros desdobramentos, é preciso uma reconstituição histórica.

Salem Nasser, professor de direito internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em Oriente Médio, explica que a versão naturalizada pelos americanos sobre o contexto que levou à Guerra do Golfo contém aspectos verdadeiros, mas, mais uma vez, são fragmentos da realidade.

Um ponto central para entender o conflito é justamente a guerra anterior protagonizada por Irã e Iraque, no período de 1980 a 1988, logo após a Revolução Iraniana.

Até 1979, o Irã era um dos maiores aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio, uma relação muito estratégica para o governo americano já que o país abriga uma das maiores reservas mundiais de petróleo. 

Porém, em fevereiro daquele ano, a insurgência da Revolução Islâmica resultou na deposição do Xá (imperador) Mohamma Reza Pahlevi, que sustentava uma monarquia autocrática pró-ocidente, e na instituição de uma república islâmica teocrática sob o comando do aiatolá (termo que se refere a chefe máximo religioso) Ruhollah Khomeini, o que fez cenário geopolítico mudar completamente.

Os Estados Unidos decidiram, então, insuflar a guerra entre os países vizinhos aliando-se a Saddam Hussein, estadista e primeiro ministro iraquiano.

De acordo com Nasser, o Iraque foi incentivado a começar o conflito e intensamente financiado pelo Ocidente do ponto de vista militar e estratégico, inclusive com armas químicas. 

Ele afirma que, à época, Hussein era visto pelos americanos até mesmo como um “grande herói” por lutar contra o radicalismo xiita. O ditador iraquiano recebeu também apoio de outros países árabes do Golfo Pérsico, assustados com a revolução no Irã.

Após 8 anos de conflito sangrento, a guerra terminou sem vencedores, com ambos países extenuados e com grandes prejuízos em termos de vidas perdidas, com mais de um milhão de mortos. 

Foi então que, com o Iraque abalado economicamente, Saddam retomou uma demanda territorial histórica e passou a alegar que o Kuwait seria uma das províncias iraquianas. A anexação do país, com quem já estava em conflito devido aos preços dos barris e reservas de petróleo, seria o caminho para fortalecer o Iraque e possibilitar a recuperação no pós-guerra.

Kuwait, 1991

A invasão começou em 2 de agosto de 1990, e após dois dias de intenso combate, a maior parte das Forças Armadas do Kuwait foi saturada pela Guarda Republicana Iraquiana. Em nível internacional, no entanto, a ofensiva de Hussein encontrou robusto repúdio.

“Ele fez um gesto ousado de querer ‘cobrar o preço’ da guerra com o Irã em um momento que no sistema internacional não haveria ninguém para fazer contrapeso aos Estados Unidos, que o impediria de invadir o Oriente Médio. Foi o pior momento possível para o próprio Iraque”, diz Nasser, referindo-se ao fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

Exatamente por isso, as forças da chamada Coalizão Internacional,  liderada pelos Estados Unidos e patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU), aprovaram a autorização do uso da força militar pela libertação do Kuwait no Conselho de Segurança do órgão sem nenhuma oposição. 

Com destaque para o apoio militar do Reino Unido de Margareth Thatcher, mais de trinta países contribuíram com algum meio militar para a Coalizão, formando uma das maiores alianças militares que o mundo viu desde a Segunda Guerra Mundial.

“As pessoas comemoravam que o Sistema de Manutenção e Paz da ONU funcionava como deveria. Mas a realidade da coisa é que foi uma guerra americana, uma superpotência, contra o Iraque. É a máscara da institucionalidade, mas era uma guerra unilateral decidida pelos Estados Unidos”, argumenta o especialista em direito internacional.

  

Por coincidência, Nasser estava nos Estados Unidos na época da guerra e se lembra vividamente da cobertura que tentou romantizar e higienizar o conflito por meio do discurso do avanço tecnológico.

“Eu estava lá assistindo CNN e estranhando: ‘Esse cara era amigo dos Estados Unidos até ontem’”, diz, sobre Saddam Hussein. “A glamourização da guerra é do ponto de vista de quem aperta o botão e não do ponto de vista de quem recebe a bomba”, salienta. 

De acordo com o professor, após vencer a guerra e expulsar as tropas iraquianas do Kuwait, o então presidente George H. W. Bush decidiu não derrubar Hussein ou fragmentar o território do Iraque para que o país permanecesse como uma espécie de contrapeso ao Irã, que mais de quatro décadas após a revolução segue como um grande inimigo dos americanos.

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Ainda assim, os Estados Unidos adotaram uma política de sanções econômicas graduais nos anos seguintes que minaram as forças do Iraque, atacado novamente em 2003, na conhecida Segunda Guerra do Golfo.

Neste ínterim, pesaram também contra Saddam protestos de curdos e xiitas que se rebelaram contra o governo e foram duramente reprimidos.

Desdobramentos

No início do século XXI, principalmente após o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001, os planos de expansão e avanço sobre o Oriente Médio de George W. Bush, o filho, se intensificaram.

Em março de 2003, a nova invasão do Iraque foi justificada, novamente, a partir de outro falso argumento: o de que o país árabe tinha armas químicas e de destruição em massa, tornando Saddam representava um perigo mundial. 

O ditador iraquiano foi capturado em dezembro daquele ano, mas, anos depois, Bush e Tony Blair, ex-primeiro ministro do Reino Unido, assumiram que as armas não existiam, como constatado e alertado pelo Conselho de Segurança da ONU antes da invasão. Agora, em uma posição crítica aos Estados Unidos, as indicações do órgão foram solenemente ignoradas.

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“Bush queria ‘reconstituir’ o Oriente Médio, derrubar o Saddam Hussein, depois a Síria, o Irã, o Sudão… [A Guerra do Iraque de 2003] É, em alguma medida, o filho tentando terminar a obra do pai após um longo processo contra as forças iranianas pelos 13 anos de sanções. Foi um desastre. Uma outra guerra espetacularizada com milhões de vidas perdidas”, critica Salem Nasser. 

A Guerra do Iraque durou cerca de oito anos e custou a vida de mais de 115 mil civis iraquianos e de quase 5 mil soldados americanos. 

O julgamento de Saddam ocorreu três anos depois sua captura, sob o governo interino iraquiano. Em 5 de novembro de 2006, o ditador foi condenado à morte por acusações relacionadas ao Massacre de Dujail, quando 148 habitantes da cidade xiita situada 60 km ao norte de Bagdá foram assassinados. Outros crimes não foram ao menos citados.

A execução foi realizada em 30 de dezembro de 2006 e teve imagens divulgadas em todo mundo, mas, Salem Nasser atenta para um detalhe. As últimas falas de Saddam foram censuradas, não há registro em som do pronunciamento que potencialmente poderia comprometer os Estados Unidos e outros países europeus sobre a participação e venda de armas químicas usadas na guerra contra o Irã, por exemplo.

“Ficou um silêncio sobre todo o resto. De quem Saddam comprou armas, com quais diplomatas se reuniu, quem disse pra ele atacar o Irã…Tudo isso ficou enterrado”, lembra. 

Edição: Daniel Lamir



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