Yuval Noah Harari, historiador e filósofo, autor do best-seller “Sapiens” (Divulgação)

SÃO PAULO – Quais os grandes aprendizados deixados pela pandemia de coronavírus para a humanidade? Quais foram os principais erros cometidos e quais serão as grandes mudanças na sociedade daqui para frente?

Para o historiador e filósofo Yuval Noah Harari, autor de best-sellers como Sapiens, uma breve história da humanidade, e Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã, o ano de 2020 foi marcado por dois aspectos contrastantes: o sucesso científico e o fracasso político.

Se de um lado a humanidade nunca foi tão poderosa para combater uma pandemia, com o desenvolvimento de vacinas em um espaço tão curto de tempo, de outro, faltou coordenação global para enfrentar a crise, diz o israelense.

Expert ESG, evento realizado pela XP Investimentos.

Professor do Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, ele lamentou a falta de uma ou mais lideranças globais para proteger a humanidade e atuar de maneira coordenada no combate à pandemia.

Enquanto países como Nova Zelândia e Austrália foram mencionados como bons exemplos na crise, outros como Estados Unidos e Brasil mostraram respostas “terríveis” de seus governos, que levaram a centenas de milhares de “mortes evitáveis”.

A falta de integração mundial, afirmou Harari, pôde ser sentida em decisões econômicas, envolvendo medicamentos e vacinas, inclusive com uma competição entre diversas nações e uma elevação do tom nacionalista.

Uma nova globalização

Ainda que os debates com relação aos efeitos da globalização sobre a dimensão atingida pela pandemia tenham ganhado força, e colocado inclusive em discussão um eventual retrocesso diante dos isolamentos adotados, Harari não vê a possibilidade de o mundo colocar um ponto final na quebra de fronteiras. Mas defende mudanças para o futuro, no sentido de que o sistema global seja mais integrado, inclusive para evitar crises como a atual.

“A globalização não é a razão para essas pandemias, é potencialmente a solução. A verdadeira solução para as pandemias não é se isolar, mas cooperar com outras pessoas, é compartilhar informações”, afirmou.

Um dos pontos centrais da crítica reside nas medidas de vacinação isoladas. “Se você quer proteger seu próprio país, precisa proteger todos os países. E não vemos muita cooperação nessa fronte, e é muito preocupante”, defendeu Harari, ressaltando que tudo se volta ao aspecto político.

“Se você vir a pandemia continuar a se espalhar e até a piorar, é porque ainda nos falta a sabedoria política, ainda estamos tomando más decisões.”

“Wake up call”

Embora avalie não ter ficado muito otimista neste último ano com a habilidade do mundo para enfrentar um colapso ecológico e mudanças climáticas, tendo em vista os problemas na pandemia, Harari afirmou que não é tarde para uma transformação da sociedade.

“Mas espero que essa pandemia atue como um ‘wake up call’”, disse no painel, em referência a um chamado para o despertar global para questões como as descritas.

Para isso, continuou, é preciso que grandes líderes industriais, de bancos e demais instituições financeiras atuem em conjunto, para prevenir novas pandemias. “Não é tão tarde, mas é uma decisão política”, afirmou, ressaltando que o tema da sustentabilidade precisa virar uma prioridade. “Espero que tomemos decisões melhores na próxima vez”.

Os dois lados da privacidade

Um dos tópicos discutidos em seu mais recente livro publicado, a coletânea de artigos e entrevistas Notas sobre a pandemia: E breves lições para o mundo pós-coronavírus, as mudanças com relação à privacidade e à transmissão de dados também foram tema do painel desta terça.

O professor argumenta que a pandemia acelerou o processo de vigilância e monitoramento da população, o que não deve ser necessariamente encarado como um aspecto negativo. “Não sou contra a vigilância, ela pode ser um instrumento poderoso, mas tem que ser regulada da forma correta para proteger a privacidade e os direitos humanos básicos”, argumentou.

Para Harari, se três regras forem cumpridas, essas condições de respeito à liberdade e à privacidade poderão ser cumpridas. A primeira delas implica a finalidade das informações, isto é, se há coleta de dados da população, os mesmos devem servir para ajudá-la, e não para seu controle e monitoramento.

A segunda questão diz respeito a uma troca de informações. “Quando você aumenta a vigilância de indivíduos, deve simultaneamente aumentar a vigilância de governos e corporações”, disse. “Se vai só de um lado para o outro, esse é o caminho para uma ditadura.”

E a terceira e última regulação necessária defendida pelo historiador implica uma coleta de dados nunca feita apenas por um só lugar, para também evitar o caminho em direção a um estado ditatorial.

Educação crítica

Ainda sobre o aspecto político, Harari reforçou a importância da liberdade de expressão na crise para combater a falta de informações por parte dos governos. E lembrou que teorias de conspiração e fake news, tão debatidas no cenário recente, não são uma temática nova e que a saída não é aumentar o número de informações, mas mudar o tratamento delas.

O que as pessoas precisam, defende, é ter uma mente crítica capaz de saber em que confiar. “Uma população bem informada agindo por conta própria costuma ser muito mais poderosa e efetiva do que uma população ignorante e policiada”, resumiu Harari, em um dos artigos incluídos em seu livro mais recente.





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