Apesar da escassez de vacinas contra a Covid-19 em todas as partes do mundo, muitas doses de imunizantes podem acabar no lixo diariamente em diferentes países. Isso porque, uma vez abertos os frascos, a substância deve ser usada em um período de algumas horas. Se não houver pacientes para recebê-la nesse período, ela deve ser descartada.

No Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo, muitos pacientes procuram as unidades básicas de saúde (UBSs) na expectativa de obter as doses de sobra e, com isso, ser vacinados antes mesmo de sua faixa etária ser convocada. Algumas dessas UBSs criaram até listas de espera para chamar interessados quando houver excedentes.

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Só que isso não é um processo formal. Ele tem sido feito por iniciativa dos próprios profissionais de saúde como forma de evitar o desperdício de vacinas em um momento tão dramático em que populações de todo o mundo anseiam pela imunização.

A startup americana Dr. B viu aí uma oportunidade. E já tem mais de meio milhão de cadastrados interessados em receber as unidades extras de vacina disponíveis nos EUA. Cerca de 200 mil interessados entraram na lista nas duas últimas semanas. A ideia do serviço é funcionar como um sistema de alerta para vacinas da Pfizer e da Moderna descongeladas – que devem ser usadas em seis horas.

Profissional da saúde com ampola da Pfizer e seringa
Depois de descongelada, vacina da Pfizer tem de ser usada em até seis horas. Foto: lakshmiprasada S/Shutterstock

Cyrus Massoumi, fundador da Dr. B, lembra que as vacinas contra a Covid-19 são os itens mais raros no mundo atualmente. “Ficamos preocupados com o fato de que muitas doses poderiam ser desperdiçadas em meio a toda essa corrida”, conta.

Massoumi estima que entre 20% e 30% dos agendamentos para receber vacinas são perdidos nos EUA. Com isso, as doses descongeladas destinadas a esses pacientes podem acabar no lixo. Para que elas sejam aproveitadas, os provedores de vacinação as aplicam em funcionários ou em qualquer um que estiver por ali no momento. Essa notícia se espalhou e começou a provocar caos: com filas e listas de prioridade aleatórias.

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É aí que a Dr. B quer entrar: funcionar como uma lista de espera para essas situações. Assim, os postos de vacinação saberão quem procurar para receber as unidades excedentes de vacinas. Quem se cadastra para participar tem de fornecer o cep da residência e preencher um cadastro que vai determinar se é elegível para receber o imunizante.

Pessoa sendo vacinada contra Covid-19
Interessados se cadastram para serem informados quando houver sobras de imunizante em postos de vacinação. Foto: Udom Pinyo/iStock

Sempre que há doses excedentes, a Dr. B envia mensagens de texto a quem estiver nos ceps próximos do posto de vacinação e de acordo com a lista de prioridades definida pelo Estado. Depois que recebe o alerta, o participante tem 15 minutos para confirmar que pode chegar ao local para ser vacinado em até duas horas. Aqueles que não podem atender ao chamado, voltam para o fim da fila.

O sistema conta com os postos de vacinação para marcar a segunda aplicação de imunizante para os pacientes. Mesmo assim, Massoumi acredita que garantir que os cidadãos recebam a primeira dose é um grande avanço.

Apenas nos EUA

Por enquanto, a Dr. B atua apenas em duas cidades americanas: Little Rock, no Arkansas, e Nova York, em Nova York. Isso porque os postos de vacinação são verificados para confirmar que são verdadeiros. Mais de 200 outros provedores, de 30 Estados, aguardam aprovação.

Massoumi conta que o cadastro dos postos de vacinação ainda é o maior obstáculo, já que o esforço é basicamente voluntário. Segundo ele, não há planos de monetizar o sistema nem se sabe o que vai acontecer com ele depois da Covid-19. “Queremos apenas fazer isso funcionar o mais rápido possível”, reforça. “Pacientes e provedores querem usar o conceito e queremos garantir que ele seja prioridade.”

Apesar da boa vontade por trás do projeto, há preocupações de que ele aprofunde a dificuldade de acesso de algumas comunidades, como a negra e a latina, aos imunizantes. Isso porque a ideia só atende aos cidadãos que tenham telefones à mão e possam largar tudo para correr ao posto de vacinação quando forem chamados.

Gabriel Lázaro-Muñoz, professor do Centro Baylor de Ética na Medicina e Política de Saúde, está preocupado que o projeto torne ainda pior a desigualdade na distribuição de imunizantes nos EUA. “Eles buscam solucionar o problema, mas isso também pode aumentar a injustiça”, analisa.

Para Massoumi, o sistema de filas da Dr. B vai ser mais igualitário do que o conceito adotado na maioria dos Estados. Embora haja prioridade para idosos e vulneráveis, quando mais grupos são adicionados, a quantidade de recebedores potenciais aumenta. E alguém que ainda não tenha tomado a vacina, deixa de ter vantagem. Na Dr. B, as informações são mais precisas e o sistema envia mensagens sempre aos pacientes mais vulneráveis primeiro.

Por enquanto, a Dr. B está limitada aos EUA, mas Massoumi acredita que o sistema pode ser usado também para imunizantes não congelados ou em países em que a vacinação esteja lenta. “Até 2023, não será possível vacinar todo o mundo”, acredita. “É uma crise global, tanto a pandemia quanto o agendamento da vacinação. Criamos uma solução para isso.”

Fonte: The Verge





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