Sentada na varanda, com uma bandeira do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) pendurada bem atrás de si, Angelina terminava o crochê feito com linha vermelha na borda do pano de prato.

Maria Natilina estava mais agitada no serviço da casa: um pouco mexia as panelas e um tanto ficava ali perto do celular, plugado na tomada para garantir a bateria. Sempre atenta, não sentava, pois a comida no fogo logo pedia uma nova mexida.

Edel e Débora, mãe e filha, aproveitavam o dia fresco e lá estavam no meio do quintal produtivo agroecológico, uma do lado da outra, bem sérias, caneta e caderno nas mãos.

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Catiane chamou a filha pequena, que deu o ar da graça por alguns minutos. Dona Francisca, a Chica, preparou espaço na mesa e tinha ao seu lado a neta, que dava carinho na avó e espiava a tela também.

No computador ou na telinha do celular, elas estavam em um diálogo nacional sobre capitalismo, patriarcado e racismo. A formação política Diálogos Pedagógicos a partir do Feminismo Camponês Popular são encontros virtuais organizados mensalmente pelo MMC.

A mística inicial sempre aponta o sentido e a potência. As animadoras cantam: “Eu vou fazer uma farinhada/E as camponesas do norte eu vou chamar!”. E as mulheres do norte abrem seus microfones e dizem: norte do Brasil, PRESENTE! E assim com todas as regiões.

Em tempos de pandemia, as mulheres organizadas no MMC em 16 estados reinventam formas de permanecer em formação. Muitas se desafiam e pela primeira vez aprendem a baixar o aplicativo para participar de uma conferência online.

Angelina, Chica, Catiane, Edel, Maria e Débora são algumas das mais de 250 mulheres camponesas de todo o país, do Acre ao Rio Grande do Sul, que vêm se encontrando para estudar e refletir.

O processo de formação, que teve início no dia 27 de fevereiro em aula inaugural com a socióloga Sabrina Fernandes, é uma caminhada que vai até junho de 2022. Com diálogos mensais, a formação será certificada pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), do Rio Grande do Norte, como curso de extensão.



Angelina terminava o crochê feito com linha vermelha na borda do pano de prato enquanto participava das discussões / Reprodução

Também estão participando da formação mulheres de vários outros movimentos da Via Campesina Brasil e da Via Campesina Internacional, pastorais e organizações parceiras do MMC.

Análise da realidade para orientar lutas

De acordo com Michela Calaça, do Coletivo de Formação do MMC, o processo foi pensado com vários objetivos.

“O primeiro, e talvez mais importante, não nos sentirmos sozinhas! Encontrar as companheiras, mesmo que virtualmente, fortalece nossa alma, em especial em um momento tão terrível da realidade brasileira, quando um governo consegue ser tão ruim que piora o quadro da pandemia com a fome, o descaso, a falta de vacina, as ameaças à democracia”, aponta.

A dirigente do MMC ressalta também que um segundo objetivo é a importância crucial de continuar a formação política de base.

“Só com análise profunda da realidade para orientar nossas lutas vamos conseguir sair desse quadro tão brutal no qual nos encontramos”, ressalta Michela, que é do Rio Grande do Norte.

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“E é fundamental frisar que para nós a formação não se dá só nos momentos de encontros e diálogos, mas acontece em cada luta que tocamos, em cada momento que nos reunimos para organizar nossos próximos passos. Nossa caminhada é um processo de formação”.

Catiane Cinelli, filha de camponeses do interior de Santa Catarina, entrou na militância do MMC ainda muito jovem.

Estudou Pedagogia da Terra impulsionada pela participação no Movimento e pelas oportunidades abertas pelas lutas por acesso à educação superior para as camponesas. Seguiu os estudos pesquisando as mulheres lutadoras do campo e hoje é professora na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

“Os Diálogos Pedagógicos a partir do Feminismo Camponês Popular trazem vários temas que fortalecem a luta e organização das mulheres camponesas e de toda a classe trabalhadora”, explica Catiane.

“Vamos estudar e refletir sobre a importância da formação política, racismo, patriarcado e capitalismo, aprofundando como funciona a sociedade, os modos de produção, gênero e classe, além das lutas antirracista, feminista e camponesa”.

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A própria história de luta do MMC, com o contexto das décadas de 1970 e 1980, e a caracterização do movimento nos diferentes estados brasileiros também estão na proposta de estudos.

“Conversaremos sobre o nosso socialismo, com os elementos relativos ao socialismo no MMC. Aprofundaremos a história da agroecologia e do modo de vida e projeto de sociedade a partir dela, analisando todas as experiências no MMC”, pontua Catiane.

“Também vamos tratar especificamente sobre os aspectos históricos do feminismo, suas correntes e, por fim, o Feminismo Camponês Popular, compreendendo que todos os temas perpassam essa construção”.

Livro referência traz a perspectiva das camponesas sobre feminismo

Recentemente o MMC lançou, em parceria com a Editora Expressão Popular, o livro Feminismo Camponês Popular: reflexões a partir de experiências no Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). A obra pode ser adquirida pelo site da Expressão Popular.

Edição: Poliana Dallabrida



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